Metajornalismo

Escolher não escolher

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O texto “Pra que ler jornal de papel?“, deste blog, foi republicado há algum tempo no Digestivo Cultural. Lá, sugiram alguns comentários interessantes, vale a pena dar uma olhada. O artigo confronta jornal impresso e os meios de comunicação mais jovens, encontrando um valor no antigo que não há no novo.

A internet não é um percurso. É o mar aberto. (…) uma das utilidades que vi nos jornalões: me manter em um rumo (…). Nessa sugestão de caminho, encontramos a segunda utilidade: ao longo das editorias, sou apresentado a assuntos que eu não procuraria virtualmente, e, assim, nunca saberia deles. (…) A internet é como o mar de certo conto de Poe: te drena em uma espiral e te afunda. No fim das contas, ela te dá mais e mais de você mesmo.

Quem quiser repensar tudo por outro ângulo, deve ler essa matéria do NY Times: “Youtube wants you to sit and stay a while“. O paralelo fica evidente nesta passagem:

YouTube faces a huge obstacle: very short videos are unlikely to hold interest when watched in long sequences. (…) The end of a program — whether it has lasted two minutes or two hours — invites consideration of doing something else. In YouTube’s case, of course, the end comes often. Jamie Davidson, a YouTube product manager, says that the 15 minutes of daily viewing by a user typically involves six videos, with the conclusion of each presenting “a decision point, and every decision point is an opportunity to leave”. “We’re looking at how to push users into passive-consumption mode, a lean-back experience,” Mr. Davidson says.

A atenção ao site tem chance de morrer a cada vídeo assistido; frente a isso, empresários pensam em oferecer listas de reprodução ininterruptas, e atrações mais extensas, de modo a criar uma experiência de lean-back, oposta a de lean forward. Segundo o Google providencialmente me informa, o El País, em “La Red desafía el reinado de la televisión“, definiu os termos assim (outra definição aqui):

La navegación en la Red incita a un tipo de consumo multitarea opuesto a la actitud acomodaticia del televisor. Algunos analistas sostienen que está emergiendo un nuevo modelo de telespectador. Junto al tradicional, acostumbrado a recibir los contenidos (denominado lean back por la posición reclinada en el sofá), nace el otro espectador multipantalla, habituado a buscar lo que quiere consumir (llamado lean forward, inclinado sobre el teclado).

A ironia é que um gigante da web queira por os usuários em um “modo de consumo passivo”. No NY Times, é dito que: “se a mente está muito ocupada com o processo de escolha, isso tira parte da experiência de assistir”. Voltando ao texto dos jornais do papel, outra complicação pode ser encontrada em Sobre a Filosofia e outros Diálogos, livro que reúne diálogos de Jorge Luís Borges e Osvaldo Ferrari. Enquanto aqui estamos pondo o jornal como leitura menos superficial, o escritor argentino, em 1985, diz: “O jornal é lido, bem, para o esquecimento; se ouve o rádio de modo efêmero, mas o livro é lido com uma forma de respeito. O livro parece ser algo permanente”.
À primeira vista, só a defesa algo maníaca da sacralidade do livro. Mas não. Os diálogos desse livro foram primeiro transmitidos pelo rádio, depois impressos nos jornais, e então reunidos em livro. O que resulta dizer que o que valia ser esquecido era igual ao que era efêmero que era igual ao respeitado, ao permanente. Talvez seja a postura de quem assiste ou lê que importe, não? Que de um meio lean back alguém tenha uma experiência lean forward, ou o contrário. Sempre se escolhe; se escolhe até mesmo não escolher.
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Como fazer um jornal de bairro?

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Há algum tempo, o telejornalista global Flávio Fachel, prêmio Esso de 2001, postou no seu twitter 11 dicas para quem quisesse fazer um jornal de bairro. São conselhos que ele tirou da própria experiência: logo depois de formado, implementou um projeto desses e conseguiu uma boa renda. Republico a “receita”, como ele chamou, pela utilidade que pode ter pra todo mundo.
Não encontrei muitas matérias de Fachel fáceis de assistir na internet, mas achei uma série que parece interessante: um conjunto de reportagens sobre os evangélicos no Brasil, sua presença, sua atividade filantrópica, as características de cada tendência religiosa. Também uma matéria sobre como são feitas as negociações entre traficantes e grandes vendedores de armas. Infelizmente, não achei as que receberam o prêmio Esso. De todo modo, seguem os conselhos do repórter:

Receita de bolo pra fazer o seu jornal:

1) Defina a linha editorial e o público (sobre o que você vai falar e para quem).

2) Organize a pauta para a edição zero.

3) Faça as matérias, tire as fotos, crie o projeto gráfico, editore e faça uma cópia na gráfica expressa da esquina.

4) Depois, defina a tiragem e faça o orçamento da impressão e distribuição do jornal.

5) Com o orçamento claro, veja quanto você precisará para manter o jornal funcionando por três meses.

6) Calcule, então, o preço dos anúncios de modo que no máximo 1/3 do espaço total do jornal pague o custo mensal de produção

7) Com o preço definidos, mostre o projeto para as principais lojas comerciais da região que tem seu foco de venda nos moradores locais.

8) Não, você não vai bancar a produção do jornal com matérias pagas e nem com dinheiro do condomínio. Seja independente.

9) Feche contratos de veiculação de no mínimo três meses de duração, para garantir esse período de sobrevivência para o jornal.

10) Só depois de cobrir o custo de três meses de produção, lance a primeira edição do jornal.

11) A partir daí, tenha um setor exclusivo para venda de anúncios, um para produção das matérias e outro para distribuição.”

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Informação e sedução

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Domingo, enquanto eu estava no fechamento do caderno de esportes de A Tribuna, reparei em dois títulos de outros jornais que abriam a mesma notícia. Reparei na falta de atenção que um permitia e no interesse vibrante que o outro causava. O evento de fundo é o jogo Corinthians x Santos, o fato em questão é a declaração pós-partida do jogador santista Marquinhos, a saber, de que os adversários tinham sido favorecidos não só pelo juiz como por uma conspiração de sabe-se lá quem para que os corintianos faturassem uma taça no ano do centenário. Ele disse, nas palavras de O Estado de S.Paulo, que fez a citação mais extensa:

Todo jogo o Corinthians está sendo ajudado. Não sei se é coincidência ou se estão puxando o saco”, disparou, antes de defender sua posição regular no gol anulado pelo juiz. “Eu estava muito atrás do cara. Mas se eles não ganharem nada no ano do centenário, morre alguém. Todos os times que estão no Brasileiro precisam abrir o olho“.

O Estadão abriu assim:

Jogadores do Santos criticam arbitragem do clássico

 A Folha de S.Paulo, desta forma:

“Se o Corinthians não ganhar este ano, morre alguém”, diz Marquinhos

Acredito que está evidente a diferença de força de um título para o outro. De todo modo, creio que um meio de explicitar o que quero dizer é destacar que há um certo marasmo no primeiro, uma carga de “até ai, nada de novo”, ou a falta de uma resposta para o possível “e daí?”. O segundo instiga porque ele pode se referir a muitas matérias, o que o Marquinhos disse seria resumo ideal de vários outros conteúdos: no fim das contas, o título te deixa especulando muito e sabendo pouco, e então você clica. Por outro lado, ele é bastante sensacionalista. Para um meio termo, existe esse do Globoesporte.com:

Marquinhos insinua favorecimento ao Timão no ano do centenário

Esse último me parece o melhor de todos, objetivo, sem oba-oba, direto. Além de tudo, logo na linha fina (que é um recurso que não existe nos sites dos outros veículos citados), se destaca a frase-bomba que a Folha usou. Se você pensa bem, o Globoesporte.com demonstra que o que aconteceu foi que o repórter do Estadão não pegou a notícia, o fato vívido mais importante de então. Acusação de favorecimento é sem sombra de dúvida mais notícia do que jogadores fazem crítica ao juiz. Por fim, é também só no site da Globo que se tem algo à guisa de repercussão: “Após acusações de Marquinhos, Mano revida: ‘Cuidem de suas vidas’“.
Nos outros dois veículos, a matéria com os depoimentos de Mano Menezes nos vestiários destacam outras coisas, o que pode ser uma falha principalmente no caso da Folha, porque com um título como aquele da matéria anterior a pergunta que surge é: “mas, e aí, o que foi que o Corinthians disse disso?”, e essa questão fica sem resposta. Os títulos usados nessas entrevistas do Mano também são contrastáveis:

Folha: “O fundamental foi jogar futebol para vencer o Santos”, diz Mano Menezes

EstadãoMano aponta ofensividade como fundamental em clássico

Novamente o uso de aspas pelo primeiro jornal, mas desta vez penso que o outro fez mais jornalismo. A frase do treinador é forte, mas, no fundo, “o fundamental foi jogar futebol” não diz nada, e diz menos ainda pra quem é pouco ligado no esporte. O segundo título traz uma informação, e a traz de tal forma concisa que você nem precisa ler a matéria inteira. Você tem o fato.
Há uma série de outras matérias na cobertura (como essa, essa e essa), mas não é meu objetivo comentar todas. Retiro de tudo isso dois fatores que podem servir de guia, pelo menos para mim, na hora de escolher um título: a quantidade de informação e o potencial de sedução que a frase possui. 
Para um visão mais ampla sobre títulos, além desses dois qualitativos, há dois posts de Alessandro Martins que avaliam outros critérios, que valem principalmente para modelos mais elásticos do que o da matéria padrão dos jornais informativos diários — “Com estas 10 idéias seu título vai fisgar o leitor e ele vai pedir mais” e “Escreva títulos matadores e seduza… a atenção do leitor“. Se vocês tiverem outros exemplos, outros links e outras ideias, por favor, comentem.
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Software Biológico

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Na semana passada, cientistas americanos deram vida a uma ex-bactéria, uma célula sem material genético, transplantando a ela um genoma sintético. Diz-se que é um dos maiores feitos científicos da história. Pois bem. No Jornal da Tarde de 21/5, o repórter usou um bom recurso para tornar claro o procedimento dos pesquisadores.
Pensando no genoma como um software biológico, o que os cientistas fizeram foi “piratear” o sistema operacional de uma máquina, transferir esse programa para outra máquina e fazer com que a máquina funcionasse normalmente. [leia completo]
A matéria do JT só erra nisso aqui: “cientistas conseguiram pela primeira vez produzir uma forma de vida “sintética” em laboratório”. A mesma equipe, alguns anos atrás, tinha produzido um vírus. E, mesmo que fosse inédito, os pesquisadores não sintetizaram toda a “forma de vida”, mas apenas o genoma, se aproveitando da carcaça celular. De todo modo, o recurso que destaco, até onde sei, é uma sugestão corrente a quem pretenda escrever jornalismo científico: partir de um exemplo conhecido para ilustrar o desconhecido por analogia. Pesquisando, descobri que a Super Interessante utilizou, em 2007, para o mesmo cientista e para pesquisas anteriores, a mesma retórica:

Num computador, antes que você possa instalar os programas, é preciso que ele tenha um conjunto de instruções básicas, um sistema operacional. Só assim a máquina pode entender os softwares que serão instalados. Venter pensou que a mesma coisa seria necessária para a criação de vida sintética. Então o primeiro passo seria criar um Windows biológico, quer dizer, um genoma que contivesse apenas o básico do básico para a sobrevivência da criatura.

Terminaram com cerca de 400 genes. E ficou decidido que esse seria o Windows da primeira forma de vida criada em laboratório. Mas não um Linux. (…) Quem quiser usar o mesmo sistema operacional terá de pagar royalties, se o pedido de patente for aceito. Isso revoltou cientistas concorrentes, que acusaram a iniciativa de tentar criar uma Microbiosoft, à moda de Gates. [leia completo]

A metáfora ainda vai mais longe aqui. Caracteriza-se o sistema operacional como Windows e se faz isso para constratá-lo com o Linux: o primeiro patenteado e acusado de monopólio e o segundo de código livre. Uma diferença é que, enquanto o JT gera apenas clareza, a matéria da Super permite especular sobre conflitos futuros no terreno da biotecnologia, pressupõe tendências.
Além da funcionalidade da analogia, porém, me parece estar certa visão de mundo por detrás desses exemplos. O modo pelo qual as duas matérias veem a vida é mecanicista, compara o funcionamento biológico ao funcionamento de uma máquina. E é assim de fato? Encontrei pelo menos dois artigos que expõem as críticas a esse modelo, “Haeckel e Nietzsche: aspectos da crítica ao mecanicismo no século XIX” e “Holismo X Mecanicismo — Que é a vida?“. Ainda não li, então não posso assegurar a qualidade ou a pertinência deles. Assim que ler esses e outros, avanço na análise.
Para quem quiser mais sobre o genoma sintético: o cientista responsável pelo projeto, Craig Venter, pronunciou uma palestra no TED em 2008, em que ele prometia criar vida, como de fato fez.
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Percurso e Surpresa nos Jornalões

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JornaisPubliquei no Digestivo Cultural o artigo Pra que ler jornal de papel?, sobre uma mídia supostamente moribunda: os jornais impressos. Há neles aspectos atrativos, inexistentes na internet, sua algoz? Explorei essa possibilidade e algumas outras ideias. Eu escrevi:

Em primeiro lugar, o jornal me sugere um percurso. Realiza uma seleção, dispõe discussões relativas ao tema, agrupa as matérias de forma que eu as visualize todas com o virar das páginas. Navegando na Folha Online, eu teria de passar de link relacionado a link anunciado, mas nada ali me diz que aquilo faz parte de um todo, só me diz que foi acumulado no mesmo lugar. (…) Nessa sugestão de caminho, encontramos a segunda utilidade: ao longo das editorias, sou apresentado a assuntos que eu não procuraria virtualmente, e, por isso, nunca saberia deles. Esportes, temas femininos, construção, design ― não procuraria nada no Google sobre eles; mas ali no jornal estava uma matéria e por acaso eu aprendi. A internet é como o mar de certo conto de Poe: te drena em uma espiral e te afunda. No fim das contas, ela te dá mais e mais de você mesmo, seguidamente.

atualização: o artigo foi referenciado, em link, no estudo “O Design de Jornais: Do Texto ao Hipertexto“, da pesquisadora Ana Gruszynski, no livro Mapeamento do Ensino do Jornalismo Digital no Brasil em 2010.
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A arte contra a natureza

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A Piaui #44 perfilou um artista contemporâneo brasileiro, Cadu Costa, apresentando algumas de suas obras. O perfil foi publicado na Esquina, seção de textos curtos e bem-humorados que abre a revista. Meu problema com essa reportagem em particular é que o bom humor dela toda me pareceu ser fundado em preconceitos sobre arte contemporânea. Ao longo do texto, nas entrelinhas, constrói-se o desprezo por esse fazer artístico, seguindo um ideal conservador anacrônico.
Para construir esse desprezo, um dos recursos do texto é o distanciamento irônico frente a tudo o que relata:
Os espectadores que encerravam a visita – maravilhados ou furiosos com a curadora Laura Lima, cujas convicções sobre o fato artístico autorizavam-na a despejar um caminhão de areia nos galpões da Bienal (…) [grifo nosso]
“Despejar um caminhão de areia”, assim posto, parece denunciar uma fraude. Laura Lima encheu uma sala de areia e chamou de arte; é isso que a matéria diz. É isso, de fato, que a matéria diz sobre todas as obras que cita. O autor também se diz: “cujas convicções sobre o fato artístico”, ignorando a possibilidade de dizer ao leitor quais seriam essas “convicções”, porque o que ele quer é significar que são inescrutáveis. No site da Bienal, o repórter descobriria o tema da exposição: o absurdo, o instável.
Depois, atenta-se muito para que sentimentos as pessoas tiveram em relação à obra. Os espectadores  ficaram maravilhados ou encantados; outros furiosos ou indignados. Antes de mais nada, é preciso notar que crer que a obra deva “maravilhar” ou “encantar” já parte de um pressuposto anacrônico. E se entende que alguém se “enfureceu” ou se “indignou” porque se sentiu enganado; “isso não é arte”, grita o repórter de Piaui frente ao que pensa ser um embuste. Ele chegou à exposição com crenças bem definidas do que deve ser a arte. Como o que havia não correspondeu às suas expectativas, supôs a fraude. Como diz Marcelo Coelho: “para o crítico conservador, se ele não vê nada, não há nada para ver”.
Além disso, essa divisão de sentimentos também serve para definir quem é quem no público. Quando tratam da obra Flat Sounds:
“(…) iam para o estacionamento, ligavam o carro e partiam em plena meditação estética, sopesando os destinos da arte contemporânea. Não estivessem eles tão absortos no encantamento ou na indignação com o que acabavam de ver (…) Os mais distraídos certamente encararam esse exagero de obstáculos como uma afronta ao balanceamento do carro. Entretanto, a ouvidos mais afinados com as estratégias da arte contemporânea, o efeito se impunha rápido – e sublime.”  [grifo nosso]
A “meditação estética” implica em estar o público “absorto“, “distraído“. Perplexo, é a palavra, talvez, que o repórter queira trazer. De qualquer modo, segue daí uma divisão dos visitantes: os que não perceberam o que significava a arte; e aqueles que estavam acostumados com a arte contemporânea. Os primeiros são claramente as pessoas “normais”, o repórter da revista e o presumível leitor risonho; os segundos fazem parte do compadrio que aceita essas maluquices — que tem aquelas “convicções” que lhes deixam fazer isso.
A ideia de que os envolvidos com esse tipo de arte aceitam tudo e que seus conceitos são incompreensíveis ao cidadão comum aparece de novo nesse parágrafo:
Nada, porém, representou tanta dedicação à arte quanto a obra 12 Meses. (…) No fim das contas – literalmente, no caso -, a ponta do V tomou a forma de um vale, não de uma escarpa, mas isso não impediu que a obra fosse recebida com louvor em museus e galerias de São Paulo e do Rio e – misteriosos são os desígnios da arte – num centro cultural na cidade inglesa de Plymouth.”  [grifo nosso]
Há, porém, um elemento novo aí. O autor alude à quantidade de dedicação que o artista teve. Isso parece à toa, mas é uma indicação do tipo de arte que o repórter esperava: um arte que resulta de esforço. Provas dessa interpretação são a linha fina da matéria e a frase que a fecha. A primeira diz: “pintar a Capela Cistina é coisa de principiante“. Refere-se à igreja pintada por Michelangelo, ao esmero técnico dos renascentistas e implica, na piadinha, em dizer que, com areia, sismógrafos e redutores de velocidade os contemporâneos querem ser mais que o pintor italiano.

Mas nunca se tratou de superar ninguém. O perfil nos leva a pensar por esse viés, porque é a partir dessa crença que ele fruiu as obras da Bienal. Partiu das ideias de técnica, de superação constante, da arte que se presta a mostrar a beleza, a emocionar, a encantar. Ser sublime ou não, como um parágrafo anterior impõe a Flat Sounds, é um objetivo de uma época antiga, não obrigatório aos artistas atuais.

A frase final, meio deslocada do texto, é a que segue:
Torçamos apenas para que seja tolerante com a natureza e não sequestre o canto dos passarinhos para melhorar seus gorjeios.
Esse trecho decorre de todo conteúdo implicíto que citei. Aqui, flagrante, se diz que a arte contemporânea é um excesso. Tentativa de estar acima, de melhorar o que não se melhora. É um arte contra a natureza — está aí dito, eu não exagero — não-natural, é quase dizer que é uma arte doente: o mesmo que Monteiro Lobato disse das pinturas de Anita Malfatti:
Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêm as coisas e em conseqüência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (…)
A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…) Nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura.” [grifo nosso]
Sem tirar nem por, toda a ideologia por detrás desse perfil da Piaui. No fim das contas, um péssimo perfil em uma boa revista, gerando desinformação e afastando as pessoas da arte mais recente, em vista de uma apreciação “tranquila” (como diria Merleau-Ponty) da arte clássica.
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Ideia de Si

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Na Bravo! de maio, saiu um perfil do fotógrafo Bob Wolfenson, feito por Armando Antenore. Wolfenson trata da sua arte, mas ao falar dela evidencia uma tensão que é própria do jornalismo como um todo, e talvez do documentarismo e de algumas estirpes da produção artística. Acredito com a mesma facilidade que quando ele fala da arte de captar superfícies ele poderia aplicar tudo o que diz à vida, ao próprio cotidiano, que seria também essa batalha cordial entre incorrigíveis trapaceiros.

Mas estou divagando.

O perfil não é bem um perfil. Saiu na seção Confessionário, que já contou com Angeli, Contardo Calligaris, Marília Gabriela, Erasmo Carlos, José Mojica MartinsMatheus Nachtergaele, e mais. A Confessionário é bem escrita e diferente do convencional. Primeiro, não procura abranger o personagem, como a maioria dos perfis, mas iluminar algumas latitudes dele. Não tem uma estrutura linear, as partes do texto poderiam ser lidas individualmente, poderiam estar em conjunto com outras, poderiam ser outras. Talvez seja essa a ideia.
Abaixo um trecho. Quando puserem online, vinculo o artigo completo:

(…) A fotografia é somente a arte de captar superfícies. — Assim que se defrontam com uma câmera, os modelos, quaisquer modelos, buscam principalmente iludir os fotógrafos. Concordam em se mostrar, ainda que não se mostrem de fato. Escondem-se fingindo não se esconder. E tudo porque desejam transmitir para a objetiva a imagem que gostariam de ter em vez da que pensam ter. Do mesmo jeito, assim que se colocam atrás de uma câmera, os fotógrafos, quaisquer fotógrafos, buscam principalmente iludir os modelos. Sedutores, tentam passar a ideia de que irão espelhá-los. Ou melhor: de que irão espelhar aquilo que os modelos sonham ver no espelho. Mas o que os fotógrafos pretendem de verdade é se apropriar das desavisadas criaturas para expressar um pouco de si próprios. Retratos derivam justamente daí, da batalha cordial e silenciosa entre incorrigíveis trapaceiros (…)

Tensão entre o que se é e o que se quer ser e o que se quer mostrar; me lembrou Álvaro de Campos, em Passagem das Horas: “uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim“…
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Descartes e o Jornalismo

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Estive lendo o Discurso do Método, de René Descartes, filósofo francês do século 17, para a graduação em Filosofia, e acabei por garimpar uma série de passagens que podem ser aplicadas ao jornalismo. Seus textos são regras “para a direção do espírito”, “para bem conduzir a própria razão”, e, como disse Claudio Abramo: “o jornalismo é o exercício diário da inteligência”. São trechos que falam de objetividade, isençãodistanciamento. Não proponho que se diga que o filósofo tratou desses assuntos, nem fazer exegese filosófica aqui, mas apenas que se parta dele e se chegue às próprias conclusões, usando as próprias referências.
Logo no início do livro lemos:
O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm. E não é verossímil que todos se enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha que (…) a diversidade de nossas opiniões não provém do fato de serem uns mais racionais que os outros, mas somente de conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas.
Parece haver ironia nessa primeira passagem, mas se percebe que Descartes crê mesmo no que diz. Podemos entender que cada opinião ou cada modo de agir tem um fundamento e um precedente: um motivo. Acredito que, na relação de longo prazo com uma fonte, em uma entrevista aprofundada ou em um perfil, esse pensamento deva ser algo a ter em mente. As entrevistas da Paris Review se notabilizaram por adentrar o cotidiano, o método de produção e as crenças dos escritores que entrevistavam. Em À Sangue Frio, Truman Capote remontou os antecedentes de um crime, as razões que levaram os assassinos a chacinarem uma família. Como diz a música: “todos têm suas razões…“.
E talvez esse raciocínio também tenha alguma serventia para a publicidade; tentando entender porque o público quer o que quer talvez se descubra mais sobre ele e mais sobre como atingi-lo.
Outro trecho:
Empreguei o resto da minha mocidade em viajar, em ver cortes e exércitos, em  frequentar gente de diversos humores e condições, em recolher diversas experiências (…) pois afigurava-se-me poder encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada qual efetua no respeitante aos negócios que lhe importam, e cujo desfecho, se julgou mal, deve puni-lo logo em seguida, do que naqueles que um homem de letras faz sem seu gabinete, sobre especulações que não produzem efeito algum (…)
Descartes entendeu como parte fundamental de sua formação o contato com lugares e pessoas diferentes. Não que desprezasse a educação formal: já havia estudado e se formado em um dos melhores colégios da Europa. Mas é como se, no contato com a variedade, esse conhecimento se depurasse. Ele diz: “aprendi a não crer demasiado firmemente em nada do que me fora inculcado só pelo exemplo e pelo costume“. Por outro lado, é esse tipo de contato que podemos oferecer ao leitor com os perfis: mostramos outras vidas, outras escolhas, outras certezas tão certas quanto qualquer uma pode ser.
Por fim: o francês, nesse Discurso do Método, pretende demonstrar as regras que se propôs para reavaliar os preconceitos e os prejuízos que os ensinamentos podiam ter passado a ele, sem que tivesse pensado sobre isso. Então, para começar, ele se propõe quatro preceitos, em que se vê a necessidade de checagemdetalhamento:
O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; (…) o segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las;
O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos; (…) e o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.
Quem ler esse livro e também as Meditações talvez encontre outros trechos para citar. E é certo que os que usei não funcionem só para jornalistas, mas também para blogueiros, escritores, empresários. Basta ter a visão de como aplicá-los. Se você pensar em uma aplicação diferente (lembrando que Descartes nunca se propôs a isso e que isso não é entender sua obra), participe nos comentários.
E, só pra terminar:
(…) O meu desígnio aqui não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira me esforcei por conduzir a minha. (…) entre alguns exemplos que se podem imitar, se encontrarão talvez também muitos outros que se terá razão de não seguir. Espero que ele seja útil a alguns, sem ser nocivo a ninguém.
Crítica da Mídia

Reis por Reais

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Comentando uma matéria da New Yorker sobre traficantes no Rio de Janeiro, a jornalista Ana Estela notou um erro no texto: em vez de chamar nossa moeda de ‘reais’, a revista americana a chamou de ‘reis’. A jornalista, então, pergunta: “não é nada que mude a vida de ninguém, claro. Mas imediatamente o leitor pensa: se erraram algo tão básico, como confiar no resto?”. Imprecisões, mesmo pequenas, mesmo paralelas, corroem a matéria jornalística. E esse é o caso do artigo “Chico Buarque não gosta de Roda Viva“, publicado na Bravo! deste março. Ao falar de seu tema principal, a autora, Mariana Delfini, é levada a tratar das relações esquerda/direita no período pré e pós-ditadura — e, no que faz isso, induz o leitor a uma visão histórica errada.
Delfini escreve, sem citar fontes:

Roda Viva foi vítima de um espírito de época. Uma época estranha, em que direita e esquerda ainda não haviam conquistado o civilizado espaço da democracia para esgrimir suas teses — algo que felizmente acontece hoje — e se digladiavam de maneira tosca, apelando para o recurso dos pouco inteligentes: a violência. De um lado, o Partido Comunista do Brasil e outras forças autoritárias de esquerda pregavam e praticavam a luta armada — a qual não foi uma reação contra a ditadura, pois começou a ser preparada antes de 1964, ainda em tempos de democracia. De outro, uma ditadura que, como todo regime autoritário, perseguia os opositores com violência — e indiretamente encorajava grupelhos como o CCC, que barbarizavam por conta própria. Foi um tempo que não deixou saudade, em que guerreávamos uns contra os outros, como se fôssemos talibãs. (…)” [grifo nosso]

Primeiramente, chamar de “tempos de democracia” o período que antecedeu 1964 não encontra respaldo histórico. Caio Navarro de Toledo elucida alguns pontos:

Em toda nossa história republicana, o golpe contra as frágeis instituições políticas do país se constituiu em ameaça permanente. Seu fantasma rondou, em especial, os governos democráticos no pós-46; com maior intensidade, a partir dos anos 60. Assim, pode-se dizer que o governo Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o espectro do golpe de Estado. (…)”

No pré-64, outras reivindicações políticas visavam o alargamento da democracia liberal vigente no país: entre elas, (…) a legalidade do Partido Comunista Brasileiro, posto fora da lei desde 1947. Embora alguns de seus membros conseguissem ser eleitos por outros partidos, embora tivesse lideranças em sindicatos, editasse revistas e semanários, o PCB não podia realizar seus encontros e reuniões senão de forma clandestina e sob permanente repressão policial. A inexistência do pluralismo ideológico-partidário no pré-64 se constituía, assim, numa séria deformação da democracia política no país. (…)”

Então, o que se caracteriza como “força autoritária de esquerda” nem sequer tinha espaço naquela chamada democracia. Aqui também acontece uma falta de critério ao não distinguir o Partido Comunista Brasileiro (PCB) do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Antes a mesma agremiação, as duas partes divergiram em questões de doutrina e se separaram — sendo a segunda que daria origem a ações de guerrilha. A primeira, ao contrário do que sugere o texto quando diz que a luta armada era “pregada e praticada” antes de 1964, sustentava a transição pacífica do capitalismo ao socialismo: conceito que deu origem à divergência referida acima. Dos outros grupos de esquerda da época, só a Polop (que depois daria origem a vários grupos dissidentes) falava de luta armada, enquanto a Ação Popular (AP), embora mais oposicionista, ainda fazia parte do diálogo com o governo.
Todas as informações do parágrafo acima se baseiam em dados das primeiras partes da dissertação O Partido Comunista do Brasil e o Movimento de Luta Armada nos Anos 60de Antonio Carlos Galdino. Outra referência é o artigo As Divergências da Esquerda Brasileira no Pré-1964, de Taiara Souto Alves.
 
Um expoente da extrema direita, Reinaldo Azevedo, em um esforço para, como ele diz, “apontar as mãos sujas de sangue” da esquerda, listou 119 vítimas desses movimentos extremistas, em quatro posts (1; 2; 3; 4). E, mesmo ele, só trouxe nomes depois de 1964, o que contraria mais uma vez a tese exposta no parágrafo da Bravo!. Em outro post, tratarei de por quê é particularmente importante citar Azevedo nesse caso. Mas, agora, vamos ao último grifo: “como se fossemos talibãs”.
De imediato, a comparação parece desnecessária e imprópria. Desnecessária porque não acrescenta nada ao texto. Imprópria porque coloca juntos dois contextos irreconciliáveis. Como informa a Nova Escola, as motivações do Taliban para tomar pela primeira vez o poder eram mais religiosas que políticas e seus objetivos atualmente são contra a influência de outros países e não contra um poder usurpador interno. Por outro lado, isso implica em afirmar que os dissidentes brasileiros eram terroristas de mesmo tipo. Tese não naturalmente aceita, como argumenta, neste textoCelso Lungaretti: “o direito de resistência à tirania [impede], tanto no caso de quem pegou em armas contra o nazifascismo na Europa como no caso de quem travou a luta armada contra o regime de exceção brasileiro de 1964/85, o enquadramento legal como terrorista”. Lungaretti também cita o jurista Monnerat Baptista, que diz:

Não se devem caracterizar os atos praticados contra a ditadura militar como crimes políticos ou de terrorismo. Até porque, de acordo com a definição do art. 2º da Lei 7.170/83, foram os golpistas de 1964, e não os insurgentes de esquerda, que subverteram a ordem constitucional vigente, estabelecendo, sob a égide da violência, do terror e do medo, uma nova ‘ordem’ político-institucional, sem qualquer salvaguarda dos princípios básicos atinentes à fundamentação da soberania democrática do Estado.

Não discuto quem está certo ou quem está errado, se são terroristas ou não. Só atento ao fato de que esse trecho de Delfini acaba por sustentar uma opinião a respeito dos movimentos de esquerda — e opinião pura (que é diferente de interpretação) é algo de que o jornalismo deve se afastar. Se há, por um lado, erro histórico, e, por outro, opinião, “como confiar no resto”?
Estudos

Edições em campanha política

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[publicado no Observatório de Imprensa. Veja o original e acesse outros textos meus no OI]

O governador de São Paulo José Serra e o jornal O Estado de S.Paulo têm uma coisa em comum: ambos parecem estar em campanha, ambos pela Presidência, o segundo em defesa do primeiro. Na surdina. Contrapondo o modo pelo qual o Estadão representa Serra ao que usa para figurar Dilma Rousseff, podemos supor uma predileção pelo primeiro. A tendência se enxerga, neste artigo, pelo uso das fotos que ilustram as matérias e pela edição do todo. Poderá haver outras formas de argumentar o mesmo (ou o contrário), mas esse será o nosso meio de interpretação.

Assino o Estadão há mais de um ano, recebendo os jornais às sextas, sábados e domingos. Não posso afirmar nada a respeito da cobertura dos outros quatro dias da semana, portanto. A argumentação a ser desenvolvida também se ressente de algum rigor acadêmico: não tenho uma data precisa de início ou término; as fotos e matérias foram recolhidas durante a leitura cotidiana. Ainda assim, o material acumulado sugere de fato a tese apresentada acima e, sendo assim, é útil termos em mente a possibilidade desse viés tendencioso enquanto lemos o jornal.

As matérias foram recortadas do jornal do 1º de novembro de 2009 até o dia em que escrevo este artigo, sábado de carnaval, 13 de fevereiro. Todas elas estão disponíveis para leitura na internet, porém só algumas trazem as fotos da versão impressa.

De um modo geral, o governador aparece sorridente ou compenetrado, contracenando com objetos vinculados à ideia de atividade ou trabalho. A chefe da Casa Civil surge sempre desatenta, brincalhona, ridícula. Nas fotos aparentemente mais inocentes, também podemos ver certo tipo de ideologia quando atentamos a quem é retratado daquela forma.

Serra-trabalhador, Serra-em-ação, essa imagem é recorrente. Considere todos os objetos em interação. Em 15/01, na matéria ‘Candidato não é chefe da oposição’, o governador encara o leitor, com uma mão retira os óculos, folha de papel na outra, mangas arregaçadas. Já em 24/01, em ‘Oposição descarta propor invenções’, os mesmos elementos se repetem: papel, mangas arregaçadas, agora com um olhar convicto, ‘pra frente’.

Em 30/01, em ‘Serra reage com ironia à cobrança de Bernardo’, temos Serra sorrindo, olho no olho do leitor novamente; atrás dele, no que deve ser uma propaganda institucional, uma garota negra sorri também. A matéria afirma – com aparente opinião direta da repórter, sem justificativa ou histórico – que a referida cobrança do ministro Paulo Bernardo ‘foi mais uma tentativa do PT de trazer Serra para o centro [da disputa eleitoral]’. Porém, Serra está muito acima disso, me diz a repórter: ‘Na contramão dos desejos petistas, Serra tentava ontem mostrar que não distingue os prefeitos pelo partido, levando ao palanque um prefeito do PT. E ouviu um discurso repleto de elogios à sua gestão.’

O citado prefeito, segundo a repórter, parecia mesmo estar fascinado com Serra: ‘[Sérgio Ribeiro] Silva fez questão de esperar o governador, que saíra para atender um telefonema, para começar seu discurso.’ Ainda: ‘Silva listou os investimentos do governo estadual no município e agradeceu a Serra por ajudar a `salvar a cidade´.’ A matéria encerra de maneira simpática, com Serra afirmando que ‘a única cor de camisa que às vezes presto atenção é a do futebol’. Também ficamos informados que ele fez uma enquete sobre que time as pessoas presentes torciam e ‘o Palmeiras, seu clube de coração, ficou em terceiro lugar’.

Em 02/01, a foto complementa ‘Auxiliares de Serra preparam saída do governo’ com um governador de mão no queixo, pensativo. Atrás dele, um painel multicolorido. Para pessoas em complicação, o fotojornalismo costuma usar fundo negro, rosto em sombras. Foi o caso do ministro Fernando Haddad após a fraude no Enem: em ‘Vamos ter a Fuvest do MEC’, de 1º/11, só temos a silhueta do rosto, só iluminado nos contornos. Outro exemplo: em 23/08, na matéria ‘Reforma vira pesadelo de Obama’, o presidente americano, de braços cruzados, está contra um fundo preto onde se vêem alguns vultos. Se as cores têm esse significado, isso tudo parece dizer subliminarmente: Serra não está em complicações.

E em 6 e 18/12, respectivamente nas matérias ‘Mudança climática deixou de ser assunto de ambientalista’ e ‘Decisivo, Aécio pode ser vice com mais poder’, Serra é retratado tendo como fundo a bandeira de São Paulo. Não encontrei nenhuma matéria em que o presidente, por exemplo, ou o prefeito Kassab, estivessem à frente de bandeiras. Só em 9/01 encontra-se Marina Silva na mesma mise-en-scène.

Já com Dilma é outra história. A corroborar o ideário que se criou de que a chefe da Casa Civil seria autoritária e repressiva, temos, em 27/12, ‘Dilma defenderá Estado forte para embalar `novo desenvolvimentismo´’. A ministra, com expressão raivosa, encara o leitor de dedo em riste. Pesquisando quais outros indivíduos eram retratados de ‘dedo em riste’ (um gesto com um significado claro socialmente, de ‘por o dedo na cara’, ou similar), descobre-se que Hugo Chávez, em duas ocasiões (‘Chávez incita atrito entre estudantes’, 30/01; e ‘Holanda desmente acusações de Chávez e exige explicações’, 19/12), é representado assim. O senador Valdir Raupp, suspeito de desvio de verbas em Rondônia, está da mesma forma, em ‘Raupp perde no julgamento, mas STF adia decisão’ (19/12).

Em 23/01, temos a Dilma desatenta e tola. A matéria ‘Gracejos de Serra, Dilma e Lula contrastam com semana de conflito’ é ilustrada por uma foto em que Serra está sentado no canto direito, Lula se curva a ele dizendo alguma coisa, enquanto a ministra segura o óculos com a boca, mordendo uma das pontas, olhando para o outro lado. Em outras matérias, ela é brincalhona: ‘Comparar `incomoda´ tucanos, diz Dilma’. Ela parece se divertir com um leque que lhe cobre um dos olhos. A legenda registra que Dilma disse: ‘Nunca o Brasil, quando eles governaram, cresceu e distribuiu renda’ – mas que peso a foto deixa atribuir à declaração? Em 01/11, ela tem os olhos no direção da chamada e parece bater palmas; ‘PT molda Dilma pela cartilha de Lula’, diz o título.

E, em 30/01, em ‘Dilma faz campanha mesmo sem presidente’ (fora a opinião explícita logo no título: ela só faz campanha política com Lula), a foto mostra a ministra com fones de ouvido, interagindo com um boneco do personagem do jogo God of War. O jogo trata de um guerreiro mercenário contratado por alguns deuses. Seria exagero pensar que a escolha justamente dessa foto não faça referência a outro ideário em torno de Dilma, da sua atuação com grupos terroristas no período da ditadura militar?

A ordem das matérias nas páginas pode indicar o mesmo tipo de argumentação. No dia 19/01, o primeiro caderno abre a seção ‘Nacional’ com uma entrevista de Fernando Henrique Cardoso: ‘Chapa puro-sangue do PSDB reflete `sentimento nacional´, defende FHC’. Isso, na página A4. Como a contrariar quaisquer dúvidas que surgissem das afirmações do nosso ex-presidente, a A6 abre com ‘Dilma vai à TV, mas não sobe indica Vox Populi’ e, no olho, destaca: ‘Presidente do instituto avalia que candidatura do PT `tem problemas´’. Mas, para uma análise mais exata disso, seriam necessários outros exemplos de que não disponho.

No domingo, depois que terminei o artigo, o Estadão publicou uma matéria sobre ambos os candidatos no carnaval. ‘Candidatos pegam carona na folia’ colocava a foto dos dois lado a lado – e eu posso estar vendo significado demais, mas quem é fotografado no ato de por a coroa (da fantasia carnavalesca) é Serra, enquanto Dilma, como sempre, só sorri. No site, a única foto que aparece é a primeira.

Os exemplos citados são suficientes para afirmar, senão que existe tendência deliberada de defender o governador de São Paulo, que O Estado de S. Paulo tratou em muitos momentos os dois presidenciáveis de maneira consideravelmente diferente.