Metajornalismo

Tarefa da ‘Enciclopédia’, Tarefa do Jornalismo

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Um trecho do “Discurso Preliminar” à Enciclopédia ou Dicionário Razoado das Ciências, das Artes e dos Ofícios, editada pelos filósofos iluministas Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, que é útil à prática da reportagem:

(…) foi necessário dar, a cada matéria, uma extensão conveniente, insistir no essencial, negligenciar as minúcias e evitar um defeito bastante comum, o de insistir no que só exige uma palavra, provar o que ninguém contesta e comentar o que é claro. Não poupamos nem prodigamos os esclarecimentos. Julgar-se-á se eram necessário em todos os lugares em que os colocamos e que teriam sido supérfluos onde não serão encontrados. Tivemos ainda o cuidado de não acumular provas, quando julgamos que uma única argumentação sólida seria suficiente, e as multiplicamos tão somente nas ocasiões em que sua força dependia de seu número e da concordância entre elas. [p. 229]

extensão conveniente, o insistir no essencial, o negligenciar as minúcias — todos são atributos que podem se dar à busca da objetividade (podemos questionar como avaliar o que é ou não é “minúcia”). O esclarecimento na medida do que é preciso também se adequa à prática jornalística, que parte também da ideia de ser rápida, informando nos espaços de um cotidiano de trabalho. A última parte pode falar aos jornalistas investigativos, de artes ou de ideias: a sustentação de uma denúncia, de uma crítica ou de um ensaio exige equilibrada carga de comprovação. É necessário saber se se onera o leitor em demasia.

Metajornalismo

Atenção às Demandas do Debate

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O professor e pesquisador Pablo Ortellado apontou a prevaricação jornalística na cobertura da morte do juiz Teori Zavascki, feita contraditoriamente por se querer responsável:

Um ministro do Supremo, relator da Lava Jato, morre num acidente de avião, dias antes de homologar uma delação que incriminaria dezenas de políticos. As pessoas começam a suspeitar que o ministro pode ter sido assassinado. O consumo de notícias sobre o caso dispara, justamente por causa da suspeita, mas a grande imprensa, por “responsabilidade”, não menciona a hipótese de que o avião possa ter sido sabotado enquanto não surgem evidências concretas. Ela trata do assunto como se a possibilidade não pudesse ser discutida a sério, desprezando a preocupação do país inteiro. Enquanto isso, o acesso à má imprensa dispara, já que só ela está discutindo diretamente aquilo com que todo mundo está preocupado.

O efeito de não dar espaço à hipótese de sabotagem, por intenção de não valorizá-la indevidamente, acaba, de forma oposta, a potencializando:

É sempre assim. Surge um boato, a imprensa séria apura, não surge nada sólido e ao invés de fazer uma matéria dizendo “boato nas redes sociais não procede”, ela simplesmente não diz nada, entregando audiência para a má imprensa. Essa postura é pura arrogância. A imprensa supõe que (ainda) é a detentora da verdade social e que se ela não deu, a coisa não existe. Mas se isso algum dia já foi verdade, seguramente não é mais. É assim que ela alimenta o refrão, repetido à esquerda e à direita, de que “isso a imprensa (a Globo/ a Folha) não mostra!”. A descrença na grande imprensa é pelo menos em parte resultante desta postura arrogante. A culpa não é só do algoritmo do Facebook e da polarização. A imprensa precisa atender, sem petulância, a preocupação das pessoas comuns. Está na hora da boa imprensa discutir a possibilidade de sabotagem no avião, mesmo que seja para dizer que é uma hipótese improvável e sem grande apoio em evidências. É possível fazer isso a sério e com responsabilidade. Não só é possível, é necessário.

Existe, portanto, uma necessidade do desmentido.

Note-se que pelo menos Elio Gaspari sugeri uma investigação especial do caso: “Nada a ver com teoria da conspiração, trata-se de dúvida mesmo”.

A propósito, comentei sobre a tal polarização, pelo viés do embate direita x esquerda.

***

Relacionado: também analisando a influência da imprensa na difusão de desinformação, escreve Dairan Paul:

Em que bases se assentam os rumores? O jornalismo não estaria na hora de fazer o seu mea culpa? Para Moretzsohn (2014, p. 168), o erro está na ênfase de que informações provêm cada vez mais de pessoas próximas, e não de instituições jornalísticas: “não seria o caso de indagar de onde ‘família, amigos, colegas’ retiram as informações em que ‘as pessoas’ confiam?”. Os rumores não necessitariam de um mínimo de verossimilhança para que se acredite neles? Por exemplo, a afirmação de alguns manifestantes pró-impeachment de que imigrantes haitianos vieram ao Brasil para votar em Dilma é, certamente, absurda. Mas quantas vezes a cobertura jornalística tratou a imigração com um enquadramento positivo? Quantas vezes o estrangeiro não foi representado como um “outro” perigoso, que traria problemas ao país?

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Pautar-se e Submeter-se

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Destaco um perfil da filósofa Martha Nussbaum, escrito por Rachel Aviv para a New Yorker (piauí traduziu). A perfilada põe em questão o quanto a jornalista se pautou para o trabalho — como é de costume, experiências adversas com coberturas jornalísticas marcavam sua atitude:

No momento, Martha Nussbaum está às voltas com um livro sobre o envelhecimento. Ao consultá-la sobre a possibilidade de escrever um perfil sobre ela, comuniquei-lhe minha intenção de fazer do novo livro o fio condutor da matéria. Cética, ela respondeu por e-mail que sua carreira era longa e variada, e acrescentou: “Você considerou os vários aspectos da minha trajetória? Tem um plano a seguir?” Menos de uma hora depois de eu lhe ter enviado a resposta, ela insistiu: “Você tem um plano? Gostaria de ouvir sua opinião sobre os prós e os contras de diferentes abordagens.”

A filósofa desconfiava da minha capacidade de abarcar a totalidade de sua obra, que trata de disciplinas diversas: direitos dos animais, emoções no direito penal, política da Índia, pessoas com necessidades especiais, intolerância religiosa, liberalismo político, o papel das humanidades na academia, assédio sexual, transferência transnacional de riqueza. “Seu desafio seria oferecer aos leitores um panorama da obra que fosse esclarecedor”, escreveu. “Sem um plano, vai ficar uma coisa fragmentada.” A seguir, mencionou três entrevistas em que sua dedicação ao ensino e aos alunos não havia sido contemplada. Numa delas, fora retratada como “uma pessoa que despreza as contribuições dos outros”, “um dos maiores insultos” que alguém poderia lhe dirigir.

Para além do que possam nos dizer a respeito de como fazer uma reportagem, esses parágrafos  funcionam em vários níveis no perfil: em primeiro lugar, reforçam algo que havia aparecido em um trecho anterior:

Sua autodisciplina inspirou o conto “My ex, the moral philosopher”  [Minha ex, a filósofa da moral], de Richard Stern, catedrático da Universidade de Chicago, morto em 2013. O conto descreve a contradição entre o “hino em louvor à espontaneidade e a natureza da filósofa, a pessoa menos espontânea que conheço – antes, a mais obstinada, nervosa e mesmo fanaticamente não espontânea”.

Ou seja, dá mostras de uma tentativa de controle que pode ser contraditória com as ideias da autora (não acho que sejam). Em segundo lugar, os parágrafos cumprem o que lhes é pedido apenas por descreverem o pedido: adiante, Aviv não tratará dos livros ou tentará dar uma visão panorâmica da obra de Nussbaum.

Submete-se à entrevistada sem se submeter. Dá o que ela quer, mas demonstra, pelo todo, que buscava algo diferente. Será que discutiu os prós e contras dessa abordagem?

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Cena Madura, Efeito da Crítica

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Um trecho da entrevista do quadrinista Ricardo Coimbra ao Scream & Yell:

(…) para ter cena, é preciso ter público, ter mercado e ter crítica. Quando as pessoas vão fazer críticas sobre quadrinhos, são sempre apaixonados, pessoas que querem incentivar a criação de uma cena, e com isso passam muito a mão na cabeça dos autores. (…) uma crítica real, [que] desce a ripa (…) ajuda a cena a ficar madura. Senão, ficamos só com críticas condescendentes. Já vi acontecer com amigos meus e até comigo: o cara escreve algo como “ah, o cara é ruim pra caralho, mas temos que dar força pra cena”… Essa crítica condescendente é a pior coisa! É melhor você destrinchar logo e dar à cena a chance de melhorar. “Ah, porque entendo que o cara teve dificuldades…” Além de isso ser uma conversa fiada do caralho, é algo que não colabora em nada. Você não pode ficar passando a mão na cabeça e aceitando coisas medíocres, aceitando erros que a pessoa poderia melhorar.

Me parece que se trata menos do crítico como gate keeper — alguém que estaria ao término dos processos criativos, como que separando o joio do trigo — e mais de alguém capaz de fornecer um feedback especializado. Alguém que em um diálogo possivelmente ríspido com o artista o força a se desenvolver.

Contraponha-se Coimbra, por exemplo à visão de Barbara Heliodora:

A natureza não precisa de crítica […]. Mas a arte é um produto humano, então ela pode ser analisada. O crítico completa o processo analisando esse produto. Você vai lucrar com a apreciação do crítico e, se você tem um texto que é mais difícil, ele pode escrever a respeito do texto antes da estreia e com isso preparar o público para apreciar o espetáculo. O crítico tem uma função que tanto é ligada ao público quanto ao realizador.

A tradutora e crítica de teatro ressalta a relação do crítico com o público: prepara a apreciação, educa; analisa um produto, indica ou rechaça. Reconhece que a ligação do crítico com o realizador, mas isso se dá mais no sentido de: o primeiro pode ajudar o segundo a chegar no espectador — ou barrar o contato.

Coimbra, por outro lado, vê essa relação no sentido de construção de uma cena (de um contexto criativo, o que envolve o público, mas como um componente) e do aperfeiçoamento das possibilidades de criação.

(O quão distantes ambos estão de Jonathan Russell Clark e do crítico como artista?)

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A Cegueira do Jornalista de Games Focado em Games

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Microsoft won’t turn your Xbox One into a PC, it wants to turn your PC into an Xbox One“, de Ben Kuchera, especula sobre a estratégia comercial da Microsoft ao interligar o seu sistema operacional Windows 10 com o seu console de videogame Xbox One. O artigo pinta um cenário sombrio em que a empresa consegue debelar os seus concorrentes e fechar o mercado a seu favor. É interessante; e nos comentários dele achei uns pontos de vista pejorativos sobre jornalistas de games que valem um debate. O comentarista thecommonperson disse:

Ben’s article is that of a gaming journalist, it’s myopic and focused on a very small sliver of Microsoft while ignoring the larger context (just like someone who says Sony is a great company in terrific shape ignores the larger context of their flagging fortunes in every other division beyond Playstation and as long as Playstation is not spun off from the rest of the company I fear for its future). [grifo meu]

(…) in the myopic game-centric view of a games journalist this may be the case but as a boots on the ground IT professional perspective while MS have done some crappy things in the past this is a bridge too far for their most valued customers (and their most valued customers are not gamers which as a gamer I can say that is at times a bitter pill to swallow). In fact, their only actions so far, have been to streamline the process to do exactly the opposite of what is being alleged they are planning. [grifo meu]

Outro comentarista trooper11 aparenta a mesma opinião:

Regarding the Xbox becoming more like a pc, it’s so strange that the author is basically oblivious to the clear steps MS has taken to do just that. I’ll forgive someone that only follows gaming news, but if you also were closely following Windows development and MS’ other events, you would clearly see that MS wants the Xbox to be an extension of pc gaming. [grifo meu]

O jornalista de games é acusado de ter uma visão míope, centrada em games. Em outras palavras, o jornalista de games está sendo acusado de ser  um jornalista de games. Ou de ser “alguém que só acompanha notícias sobre games”. O artigo de Kuchera, segundo os comentaristas, não resiste a uma análise que leve em conta o cenário da tecnologia da informação de uma forma ampla, o campo comercial em que o Xbox One se enquadra, a visão de futuro global da Microsoft.

Dei uma olhada e não parece que esse é um conselho corrente para quem pretende se tornar um repórter ou crítico nessa área. Li por exemplo “How to: get into gaming journalism. It’s not all fun and games“, do Journalism.co.uk, e não há nada. Se vocês tiverem referências nesse sentido, ponham nos comentários!

Metajornalismo

O Jornalista Enquanto Boi

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Dois efeitos de manada jornalísticos. O primeiro, encontro no livro A Garota da Banda, da musicista, artista visual e estilista americana Kim Gordon (mais conhecida como baixista do Sonic Youth):

Quando conheci Jutta Koether, ela era editora e redatora na revista Spex. Ela estava me entrevistando e ao Thurston durante a nossa turnê europeia do Daydream Nation, e pareceu confusa pelo fato de que o Sonic Youth, conhecido como uma espécie de banda de punk rock, usaria a ilustração da vela de Gerhard Richter na capa do disco. Para a Alemanha, Gerhard era, e ainda é, seu principal artista contemporâneo, mas para Jutta parecia que estávamos fazendo uma decisão artística banal e orientada pelo status quo. Após semanas dando entrevistas, onde a maioria dos jornalistas fazia as mesmas três ou quatro perguntas, era ótimo ter alguém que nos desafiasse. [p. 277; grifo meu]

Todos questionando as mesmas questões, registrando as mesmas respostas e, plausivelmente, redigindo as mesmas matérias. O trecho faz pensar não só sobre o esquematismo e a falta de criatividade das pautas, mas também sobre o que espera de nós o entrevistado: ser realmente interpelado pelas perguntas, não só enunciar reações decoradas, mas de fato expressar-se.

O segundo efeito de manada está na reportagem “Padre Cícero sem Perdão“, de Adriana Negreiros, publicada na piauí nº117:

Em vez de devolver as ordens à Cícero — e formalmente reabilitá-lo —, o Vaticano sugeria a realização de uma “reconciliação histórica”. Era tudo que Roma podia oferecer. Dom Fernando leu a correspondência, escondeu-a e, após três meses de sofrimento solitário, enviou-a por e-mail para Forti. A psicóloga conta que o sacerdote estava em pânico. “Ele temia que a imprensa caísse matando em cima”, lembrou. Para ela, o mais aconselhável era não titubear. Foi o que disse ao bispo: “Dom Fernando, a imprensa é burra. Os jornalistas repetem a nossa fala. Se o senhor afirmar que o pedido de reabilitação foi negado, dirão isso. Mas, se disser que Roma fez o que sempre quisemos, eles vão na onda“. [p.41; grifo meu]

O famoso problema do jornalismo declaratório: o repórter recolhe aspas e lava as mãos. Pelo que parece, pelo que diz a psicóloga citada, aceitamos tudo, qualquer versão nos calha como verdade.

Entrevistas

Eliane Brum: Escutar o Outro Integralmente

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Publiquei no blog Fale com Arte, do Itaú Cultural, a entrevista “Eliane Brum: Reportagem é Reflexão em Movimento“, com Eliane Brum. A escritora e jornalista fala sobre a importância da reportagem para o cotidiano e a memória das sociedades, e ressalta a importância de manter o registro do trabalho dos grandes repórteres. Ela disse:

Nós somos seres históricos, com os dois pés enfiados, inscritos na cultura, e por isso a gente precisa se precaver para chegar o mais perto não de uma verdade – porque uma verdade única não existe –, mas o mais próximo das verdades todas. Por isso, o principal instrumento do repórter é a escuta, essa escuta que se faz com todos os sentidos e que te obriga a te despir de todos os teus preconceitos, das tuas visões de mundo, dos teus julgamentos, para escutar o outro na integridade do que ele é: isso é reportagem.

Metajornalismo

Um Perfil e uma Piscina de Sangue

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[Piauí, nº 95, agosto/2014] Consuelo Dieguez perfilou Paulo Skaf, presidente licenciado da Fiesp e candidato ao governo de São Paulo, para a Piauí. No texto, lemos: "Luiz Antônio Fleury Filho — que logo depois se tornaria o coordenador da campanha de Skaf — também se referiu à inequívoca vitória. Principal consultor da candidatura em matéria de segurança pública, Fleury Filho governava o estado quando a polícia assassinou 111 presos, no massacre do Carandiru". O nome me lembra imediatamente “Diário de um Detento”, dos Racionais. “Avisa o IML, chegou o grande dia. Depende do sim ou não de um só homem, que prefere ser neutro pelo telefone. Ratatatá, caviar e champanhe: Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe”. E também: “Rátátátá, Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue”.

(Neste post, eu citei Alexandre Padilha e o referendo de Lula à sua posição como candidato; quem lesse os perfis nos links veria que esse referendo era bem menos convicto do que o dado à Fernando Haddad. Segundo a reportagem sobre Skaf, o apoio à Padilha já ruiu no campo interno, mesmo aquela confiança inicial não existe mais.)

Metajornalismo

Protestos estudantis e Tendência

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Publiquei no Observatório de Imprensa o artigo Cobertura enviesada dos protestos estudantis na USP, uma análise do noticiário da Folha de S.Paulo sobre a greve e ocupação dos estudantes da USP em 2013. Eu escrevi:

Folha de S.Paulo tem realizado uma cobertura parcial das atuais manifestações estudantis na USP, que se declaram por alterações no modelo de eleição do reitor e pela instauração de uma estatuinte (com poder para, por exemplo, extrair das estruturas da universidade ordenações herdadas da ditadura). A parcialidade da cobertura deve se tornar evidente com a interpretação seguinte.

Metajornalismo

Ações são Mídia

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blackbloc

Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Passe Livre, FdE e Black Blocs – enquanto Mídia, um texto que enfoca três dos personagens que receberam destaque social após as jornadas de Junho: os black blocs, o Fora do Eixo e o movimento Passe Livre. Eu escrevi:

Esbocemos uma tese nem tão nova: as ações portam conteúdos narrativos e informativos; as ações são mídia, e, como diz a regra, implicam em reações, também midiáticas. Se assim for, nenhum ato ocorre sem estratégia nesse sentido. Os protestos de junho e correlatos nos dão três exemplos distintos disso. O Movimento Passe Livre (MPL) se dispôs no debate público como um tiro: pontual, compacto, específico, não pode ser diluído no jogo de interesses e ponto de vistas que soe ocorrer. A Mídia Ninja foi por sua vez como uma bomba de efeito moral: sua inserção no campo de atenção das pessoas gerou múltiplos e contraditórios efeitos, o maior deles o vazamento da discussão pela brecha do coletivo Fora do Eixo (FdE), quando explodiu e implodiu. Os Black Blocs, enfim, um homem que ateia o próprio corpo em chamas: indefinido e ao mesmo tempo muito bem definido, sem falar por ninguém, sem nem mesmo se preencher de sentido, obrigou a sociedade a formular sozinha os sentidos, em grandes consensos opostos. Mas as metáforas são só metáforas. Vamos aos fatos.