Contos

Normatizar, Representar, Aceitar

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Escrevi esses textos para o trabalho de conclusão de curso do meu irmão Murilo Ribeiro, que se formou no Istituto Europeo di Design (IED/São Paulo). Trabalhando a homossexualidade na infância, ele criou um livro infantil ilustrado — pesquisa, projeto gráfico, ilustrações — e eu colaborei com essas historinhas.

Elas foram pensadas para um diálogo com as imagens, mas acredito que funcionam assim também, ficam com uma cara de poesia narrativa. Exagerando um pouco, diria que são poeminhas de formação: em cada um deles o protagonista se descobre um pouco mais, atravessando as relações com a família, tensões com a sociedade, reconhecendo os seus afetos, achando espaços de paz.

Normatizar

Escolher um brinquedo não devia ser tão difícil.
Devia ser assim uma coisa que a gente quer e pronto.
Brincar é ser livre! Não é?
Parece que não é…
Levo meu brinquedo para a escola,
parece que estou levando uma bomba.
Que explosão, que escândalo!
Ser livre é mesmo coisa muita séria, já dizia o poeta.
E brincar, digo eu mesmo, é muito potente.
A gente inventa uma história.
Vira cavaleiro que salva a princesa.
Vira princesa que salva o cavaleiro.
Escolher um brinquedo
também é um jeito da gente virar o que quiser.
A gente se lança num sonho e se descobre.
O brinquedo é um pedacinho de liberdade.
Que tal?
Vem brincar de liberdade comigo?

Representar

Até que eu podia me identificar com o futebol.
Esse pessoal trancado em um retângulo.
Com regra de que mesmo tendo mão só pode usar o pé.
Posição definida no campo. Manter-se atento.
Monitorado pelo juiz, pelo técnico, pelos companheiros.
Julgado pela torcida.
E por você mesmo.
Até que temos muito em comum, eu e o futebol.
Mas sabe?
Eu preferia mesmo era outro jogo.
Não quem marcou mais gols.
Mas quem experimentou mais beleza.
Em vez dos ataques e contra-ataques,
um desfile.

Aceitar

A raiva é uma mágica que sempre dá errado.
A minha raiva por exemplo criou um monstro.
Veio com meu pai.
Ele era uma pessoa. Fechei os olhos pra isso. Fiz um monstro.
E detestei meu pai por ter trazido o monstro.
Mas aí aconteceu uma mágica mais forte.
A alegria do meu pai começou a desmentir a minha raiva.
Ele estava bem, e eu com quatro pedras na mão.
A raiva era uma roupa apertada demais.
Deixei-a de lado e a fantasia do monstro ruiu.
Rasgou aqui, rasgou ali, afrouxou, acabou caindo.
E o que eu descobri debaixo dela?
Uma pessoa! Inteirinha!
Única, tão complicada quanto eu.
Muito maior que qualquer monstro.

Jornalismo

Como fica a literatura na pandemia?

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Com falas de Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL); Mauro Munhoz, diretor artístico da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip); Beatriz Azevedo, diretora do projeto p-o-e-s-i-a.org; e André Sant’Anna, escritor, filho do também escritor Sérgio Sant’Anna, publiquei no site do Itaú Cultural uma reportagem sobre os efeitos da pandemia sobre a literatura e quais perspectivas temos para a criação literária nesse momento. A matéria aborda mercado literário, eventos do setor, migração para o digital e projetos de apoio à área, além do depoimento de André sobre o pai, que morreu de covid-19. A certa altura, Beatriz dá o tom do panorama:

A pandemia revolucionou as comunicações e outros comportamentos do cotidiano. Qualquer cenário será influenciado pelas atitudes que vamos tomar hoje. Mesmo quando houver uma vacina, sempre haverá o risco de outro vírus de proporções semelhantes ocorrer, ou ainda outros acontecimentos inesperados. Por essa razão é tão importante perceber que a pós-pandemia é agora, ou seja, este momento ‘pós’ está sendo construído. Muitas vezes esquecemos disso e deixamos a esperança ou o pessimismo em relação ao futuro vencerem a racionalidade. Mais do que nunca é preciso estar com os pés no presente.

Entre os diagnósticos trazidos no texto, destaco uma passagem de Vitor, em que ele define uma tarefa para quem se interessa pela democratização e o incentivo à literatura no Brasil. Ele

reafirma a tarefa de fortalecer o mercado literário. “Temos de continuar fazendo ações – tanto o governo como nós, profissionais do setor – para desenvolver o hábito e o prazer da leitura. Se você desenvolve isso, principalmente nos jovens e nas crianças, você vai formando leitores”. Formar leitores, insiste ele, é a condição da solidez e ampliação da área: “Se em um espaço de cinco, seis, dez anos, a gente conseguisse dobrar esse índice [de dois livros por pessoa ao ano], a gente teria de dobrar a produção literária, a gente iria precisar de mais autores, mais editoras, mais gráficas, mais plataformas para disponibilizar as obras”.

No site do Itaú Cultural, essa reportagem pode ser posta junto a outras, como “Como construir um Brasil mais leitor?” e “Quinta edição da Retratos da Leitura conclui fase de entrevistas“, que, apesar de ter envelhecido (a Retratos sairá em breve), ainda tem interesse, pois qualifica de rostos o que seriam só números: acompanhei a pesquisa casa a casa e falei com os personagens.