Episódio 3 – Três de Julho

[Este é um capítulo de As Esferas do Dragão. Saiba mais sobre o livro]

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A fala sonega. Por exemplo:

Antônio de Oliveira morreu aos 73 anos em 3 de julho de 2009. Sua última profissão havia sido a de representante comercial de empresas de materiais de construção. Teve dois filhos, um casal, Adonai de Oliveira e Sueli de Oliveira, com Margarida Gomes de Oliveira. Criou também, com sua esposa, o primeiro filho de Sueli, Duanne de Oliveira Ribeiro.

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Enquanto os demais dormiam na casa excepcionalmente cheia, eu ouvia todas as músicas cuja letra tivesse os meus olhos. And sorrow’s native son: he’ll not smile for anyone — porque eu queria estar em autoexílio, nenhum “apoio” conseguiria ser mais do que conjunto de eufemismos; for your sake I hope heaven and hell are really there, but I wouldn’t hold my breath — porque a poesia conciliava melancolia e ironia, dava o tom da “firmeza de caráter” que eu precisava exibir a mim mesmo; the photographs are peeling: the colours turn to grey — porque não podia olhar uma fotografia sua sem chorar, e só quando terminei uma das versões deste texto, anos após, é que algo se completou aqui dentro e eu fui capaz de ver sua imagem sem desmontar.

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A fala transborda. Por exemplo:

Na manhã seguinte, me atribui a responsabilidade de, antes de irmos ao velório, contar a um velho amigo do meu avô, xará seu, sobre o falecimento. Seu Antônio morava em uma casa próxima; fui e perguntei por ele. Quinze degraus de cimento abaixo, ele apareceu e, forçando os olhos atrás dos óculos de vidro grosso e convexo, me avaliou. “Sou o neto do seu Antônio”, ou algo do tipo, disse, não sem orgulho — como se declarar a ascendência me recuperasse alguma coisa. A expressão no seu rosto foi a de uma dor aguda e curta, logo substituída por um cansaço ou um desengano prévios. Despedi-me e voltei, tendo novamente o contentamento da preservação do passado.

***

Íamos, enfim, ao cemitério. O carro do meu tio aguardava, porém eu me detive por um momento no umbral entre a sala e a cozinha. Havia algo de errado na parede atrás da televisão, no lado oposto ao sofá. O grande painel que a recobria inteira — uma paisagem de montanhas enevoadas, lago de feições esverdeadas e árvores europeias — vibrava com uma potência peculiar. O sol de mentira ardeu de verdade; uma silhueta se desenhou pequenina contra a luz cegante e na medida em que vinha na minha direção, descolando-se da superfície, crescia, chegando até um tamanho humano. Era, outra vez, o deus. Capacete de astronauta, botas brancas estampadas com asas estilizadas. No braço, em vez da bandeira de um país, trazia, delimitado por um círculo da mesma cor, um H azul.

“E então, herói?”, indagou, “o caminho? A resposta a responder?”. Relutante, trêmulo, assenti. Ele estendeu o caduceu, no qual as serpentes se enrodilhavam vivas e asas no topo batiam levemente, tocou com o bastão o papel de enfeite até que a realidade se confundiu e a vara penetrou simulacro e concreto; a gosma de ambos. Remexeu lá as nuvens pintadas e as pinçou para fora, esculpindo-as numa só como quem faz algodão-doce. Néfela, nomeou-a; seria minha montaria: felpuda, da cor de um sol alaranjado, com o temperamento das cirro-estratos. Ingênua e impetuosa como uma criança que anda de triciclo e finge que “vai ao trabalho”. Acomodei-me nela, mergulhei no panorama. Senti sua tessitura rarefeita e umedecida na pele, o vento rasgando o rosto. Eu respirava o infinito.

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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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