Categoria: Crônicas

O Prefeito Daqui

“Ó o tamanho do tumor. Ó: a tela inteira”, equilibrando-se no corredor do metrô com as pernas afastadas, o homem — camisa de botão roxa, calça cáqui, cabelo só ao lado das orelhas — estendeu o celular a uma mulher sentada. Então pegou a menina de três anos, loirinha, serelepe, que estava agarrada às suas […]

Chupa a Bala Halls, Pega a Vassoura e Voa

“Ela levantou a mão e falou ‘Eu sou Maria’? pra vocês saberem? Pra vocês darem nome pra um objeto?”, diz a menina de coque na cabeça ao menino de camisa de botão listrada lilás para dentro da calça. Vê-se que ela narrava uma pendenga entre evangélicos e católicos. O rapaz comenta concordando: “É que se […]

Cristã Verdadeira

“Só porque tem uns trocadinhos, pensa que é alguma coisa. Só porque tem umas moedas, pensa que é melhor que a gente. Mandando eu me lascar. Mas eu não me lasco não, que meu Deus me cuida.” A senhorinha vem manquejando na direção do ponto de ônibus, apoiando-se em uma bengala de quatro pontas, uma […]

Rabeta Monstro

[Publicado no Facebook em 26 de outubro de 2016] Homem de meia idade no metrô, pele acobreada, barriga saliente debaixo da camisa social, uns chumaços grisalhos por topete. Olha para uma mulher de blusinha de alça sentada um metro a frente e comenta ao seu colega — um descendente de oriental também de meia idade, […]

Não Tem Nem o Que Dizer

[Cortando o cabelo. Na TV, alguém comenta sobre a namorada atual do Belo. O cabelereiro me informa sobre o estado conjugal do cantor e depois expõe uma teoria] Toda montada, cheia de silicone. Vão pra academia e colocam silicone. [Pára o serviço, se afasta um passo e disserta com os braços abertos; vejo seu rosto […]

Pra que agressão?

O pessoal capturou um ladrão hoje na estação Santana. Eu tinha acabado de passar pela catraca do metrô, estava no corredor das várias escadas que levam ao terminal de ônibus e vieram correndo um ou dois gritos de “ladrão!”; cerca de cinco pessoas perseguiam um homem de uns 30 anos, branco, cabelo curto com gel, […]

É o que acaba: a bebida!

São cinco bancos, ela está na janela, eu na outra ponta, uma mulher no banco do meio, ela abre a bolsa e percebe que em vez do celular pegou o controle remoto. Seu modo de falar tem a sonoridade nordestina típica, sua pele é escura (não sei se por origem negra ou indígena). Ou sente […]

Bem-te-vi que come carne

“Aqui é bom, né?”, diz este senhor parecido com o cientista do De Volta para o Futuro, se referindo ao banco de praça ao lado do ponto de ônibus e em frente às árvores e o gramado extenso. “Caralho”, exclama, do nada. Senta meio de lado, olha a distância. “Você está aqui há muito tempo?” […]

Por que você não é feliz?

Falava sozinha, encostada à porta do metrô. Encarnava um personagem autoritário, antipático e prepotente, um psicólogo que “estudou muito antes de abrir a boquinha”, que tagarelava sobre eficiência, “missão”, “honraria”, “servir à nação”. O psicólogo disse: “A minha aula foi ruim? Ou foi perfeita?”. O psicólogo disse: “A minha aula foi errada ou foi certíssima?”. […]

Juraci, e o seu?

“O que é esse livro aí, antropologia, psicologia?”, diz o senhor que senta ao meu lado no ônibus; eu respondo: “Filosofia”. Ele: “Ah! Filosofia. Eu tenho mais de cem livros de filosofia. Sabe qual foi o maior filósofo? Não foi Sócrates, nem Platão, nem Aristóteles, nem Diógenes” — e me mostra uma edição de “Ecce […]