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Coringa

Arthur está caído, sabe só que tem de cobrir o rosto, leva chute no estômago, no peito, nas costas, são quatro moleques, um grita: “Pega as coisas dele!”, hahaha, por essa eles não esperavam: eu não tenho nada.

Ele trabalha como palhaço-homem-placa nas proximidades da Praça da República, em São Paulo, a poucas esquinas dessa viela. O nariz lateja porque lhe quebraram a placa na cara. Mas acima da dor ele não consegue deixar de pensar na piada: estão espancando o palhaço. Hahaha. Estão espancando o palhaço.

Os moleques se cansam e se vão. A bochecha de Arthur sente o asfalto como se fosse uma calma. A rua está tão limpa. A Prefeitura está trabalhando, né?, que bom, tudo está bem. O palhaço-homem-placa (com ficha corrida de Teletubbie rosa-sujo e Pikachu gigante) se ergue dolorido, checa a placa despedaçada, manca para longe dali.

***

Arthur banha sua mãe idosa e inválida sem ser capaz de afastar a consciência de que isso lhe põe em uma armação ética confortável: aquela do Filho Dedicado ou algo assim. As armações éticas são largas como roupas de palhaço. Dá pra viver dentro dessa aqui, ele considera. Se viessem me ver, diriam: que bela fantasia, Arthur, tudo bem que viva nela.

O palhaço-homem-placa-filho-dedicado desce de elevador e quando a porta se abre lá estão a mãe e a filha pequena que moram no andar de baixo. O enunciado “me adota!” surge em sua mente e fica por lá suspenso; isso é uma coisa que se diz, não é? Não é que eu queira ser filho dela.  É um jogo com o contexto. Eu te namoraria, diz, brincando. Hahaha.

Três notas débeis anunciam melodicamente que o elevador voltou ao térreo. Uma família sai e passa por Arthur, que ainda está parado no mesmo lugar do corredor. Preciso informá-la. Do que? Dessa aposta na boca do estômago. Informá-la de que as palavras estão indecisas. Ela saberá o que fazer. Informá-la de que a resposta é sim. E brusco em sua mente como um vômito: informá-la de que a ordem é sim. Não. Sem ordens. Sem força. Eu quero ser levado pela mão.

***

O chefe diz que sente muito pelo que Arthur tinha passado, o assalto, a surra e tudo. “Não, não, que isso?”,  não está nervoso por ele ter deixado o posto, mesmo sem ter avisado. Era compreensivo. “Depois, você só combina com o RH como a gente vê de pagar essas horas.”

“A gente”, ele disse. Arthur se sente bem, sim, com essa expressão, ele poderia ter dito “você tem de pagar essas horas”, mas falou “a gente”, a gente consegue caber inteiro nesse “a gente”. Ok, não chega a ser um palácio.

Mais ou menos enquanto pensa nisso tem a ideia de uma gag: o sujeito todo dia tendo de ir bem cedo ao departamento temporal para comprar as horas que usaria naquela jornada. Ele vê outros saindo com os bolsos cheios de vinte e quatro horas, mas só pode comprar oito ou seis ou três. Hahaha. “Fazer o que”, ele se lamenta, pode ser o bordão dele. Hahaha.

A inspiração trava nesse ponto. Comprar horas, comprar horas. Como acaba?

***

Segui-la? Ele sente a subjetividade vibrar com a repreensão próxima. Mas ela nem saberia. Que diferença? E que mal? Por exemplo, minha vida seria boa se observada. Escola da filha, trabalho, escola da filha, prédio, escola da filha, trabalho, prédio, escola da filha, prédio, escola da filha, trabalho, escola da filha, prédio, nada de mais. Não roubo nada.

Mas e se ela me visse? O palhaço-homem-placa-filho-dedicado-aspirante-a-stalker imagina as cenas em que é denunciado ou se denuncia ou em que é descoberto por acaso. Modula os olhares dela que conhece para aquele que, sabe, ela teria: sagaz, concluindo. Arthur se retrai como se lhe tivessem pego o coração na mão fechada. E então a expressão dela tensionada pelo temor, e agora esse breve calor agradável no peito. Não. Não seguir por aí, porque não quero viver odiado. Não dá pra viver odiado. Se bem que tem gente… se bem que ser odiado seria possuir algo.

***

Sua mãe dorme no quarto, limpa, alimentada. A televisão ilumina a sala com tons azulados de intensidades variadas. Agora o jornal e depois os palcos de variedades. A imagem do sonho.

Arthur sempre quis estar lá. Sabia que, sendo pobre, estava qualificado como material para o entretenimento televisivo. Teria no entanto de oferecer algo a mais. Se soubesse cantar, teria chance de aparecer no Geraldo Luís. Acertaria muitas perguntas no Luciano Huck? Precisaria mostrar seu valor: quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral; o time com mais títulos nacionais é o Palmeiras. Parar na hora certa.

Dá pra viver dentro desse “inteligente”. Dá pra viver em “honesto” ou “boa índole”. Dá pra viver em “musculoso”.

Dá pra viver em “suicida”?

***

O noticiário se agita com uma transmissão de emergência: os protestos que acontecem hoje em todas as capitais do país e noutras cidades se tornaram violentos. Arthur nem sabia que estavam ocorrendo manifestações. A câmera exibe barricadas sendo armadas, um grupo de policiais acuados, o Congresso Nacional sob pedras e molotov. Meu Deus. “Isso é errado” e “isso é o certo” boiam na sua consciência. Está feliz por estar seguro. Queria estar lá.

Sem se mover do sofá percebe os músculos prontos para uma ação desconhecida. Quer se sentir convocado. Mas e se fosse ferido, mas e se acabasse matando alguém? Seria como ter tido um destino. Ele só tem de se pôr de pé e se pôr a caminho. Eu só tenho de me pôr de pé e me pôr a caminho. Agora. Agora. Agora. Vamos! Agora. Agora!

Cada “agora” um passo dentro de “Arthur”. Longo e amplo: “Arthur”. Não dá pra viver aqui pra sempre. Dá sim.

 

 

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