Portfólio

Poético, Político, Pedagógico: “Desertores”

Publiquei no site do Itaú Cultural uma entrevista com o diretor de teatro Márcio Marciano, do Coletivo Alfenim, sobre a sua peça Desertores. Adaptação de dramaturgias e textos reflexivos pouco conhecidos de Bertold Brecht — o chamado Complexo Fatzer —, busca de um teatro que seja ação pedagógica e comentário político a um só passo, o espetáculo, ainda em processo de testes, seria exibido ao público pela primeira vez no fim de agosto.

De acordo com o projeto brechtiano, o Alfenim constrói um trabalho cujos objetivos são tanto estéticos quanto políticos e pedagógicos. “Acredito que um espetáculo atinge seu objetivo”, fala Márcio, “quando oferece ao público, de forma lúdica e prazerosa, elementos para a construção de um pensamento crítico acerca de sua condição”. Esse direcionamento marca a trajetória do coletivo, que “procura refletir sobre os aspectos contraditórios de nossa formação social. Nesse sentido, Fatzer nos ajuda a desvelar os mecanismos da ordem capitalista e os mascaramentos atuais da luta de classes”. Porém, ressalta ele, tudo isso “não deve ser buscado em detrimento do caráter artístico. A pedagogia no teatro somente se realiza enquanto fruição estética”.

Esse alerta final parece responder a uma objeção sempre implícita quando a arte se envolve com a política: nesses casos, não se degrada ela em panfleto? Há alguns anos, eu levei essa questão ao dramaturgo João das Neves — falecido em 2018 — que apresentou posição similar a de Márcio: “O panfleto tem uma eficácia imediata. Ele é feito pra morrer. Já a obra de arte pretende atingir uma profundidade muito maior, ultrapassa o seu momento específico”.

Márcio e João, ambos envolvidos com o teatro épico, estão afinados nesse sentido.

Essa foi minha segunda reportagem sobre uma peça de Brecht — antes, conversei com José Regino, diretor do Teatro Experimental de Alta Floresta, sobre Santa Joana dos Matadouros. Como vimos, Márcio fala dos “mascaramentos atuais da luta de classes”. Por sua vez, José diz:

Parece que estamos fadados a esse eterno antagonismo entre as classes e a palavra-chave que mantém esse conflito é lucro. (…) Hoje podemos falar de direitos das classes menos privilegiadas, garantidos por leis, mas, enquanto o lucro reger as relações sociais, as estruturas estabelecidas não mudarão. Por mais acesso que tenhamos às informações, continuamos controlados por um sistema que sobrevive na base da exploração da mão de obra de quem serve por quem é servido.

É interessante que o Alfenim ressalte o tornar evidente algo que se esconde (“mascaramentos”) e, o Teatro Experimental de Alta Floresta, a evidência de um inimigo estrutural (o sistema baseado em exploração) e de um móvel central (o desejo de lucrar) estão claros. Abordam o mesmo objeto, mas parece que ele se dá como problema de formas diferentes. Respectivamente, são matérias de 2019 e 2014 — diferentes Brasis explicam essa mudança de foco?

Leia a reportagem completa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *