Literatura

Heloísa Iaconis resenha “As Esferas do Dragão”

Por mais voltas que possamos dar, por mais que nenhum caminho seja idêntico ao outro, por mais do mais, no começo-fim de tudo e todos, a questão é sempre a mesma: como lidar com a morte? Como saber que a pessoa amada pode, amanhã, não estar mais presa ao chão? E, ainda assim, arriscar-se a amar o outro? Por quê? E você? Você também acaba. Eu. Ele. Ela. Até mesmo aquele que te mostrou o mundo, meu Deus!, ele também se vai – e é esse o cerne de As Esferas do Dragão, livro de estreia de Duanne Ribeiro. Em um três de julho que é sempre ontem, o avô de Duanne falece e, entre procedimentos burocráticos e um rebuliço de tristeza, o autor-personagem vê-se diante da perda de quem o ensinou a andar. Ele me ensinou a andar. A frase parece pouca. A frase, na verdade, carrega muito. Para lutar contra o implacável, porém, o neto transmuta-se em herói e recorre a um universo fantástico (com inspirações no desenho Dragon Ball) para, nessa dimensão outra, ressuscitar o ente querido. Por meio de batalhas, poderes e encontros com figuras de espécies várias (robôs humanos, humanos robôs), ele vira um ser capaz de receber socos, rasgos na carne, chutes aos montes e continuar de pé. Dois mundos, a realidade e a invenção (a segunda relacionada, no caso desta obra, ao imaginário da infância do escritor), que se entremeiam em uma só narrativa. Com trechos de força poética notável (os meus favoritos, vale dizer) e inúmeras referências explícitas à filosofia, à música e à literatura consagrada (para o meu deleite, há muita Clarice por ali!), o maior feito deste volume é mostrar que nós, pessoas falhas e tão pequenas, temos apenas uma forma de vencer o invencível: a criação. E não é essa, afinal, a grande potência da arte? Para além de esferas e dragões, o livro testemunha como a criatividade, burilada com a escrita, é o jeito de ultrapassarmos o ramerrão da triste tríade “nascer, crescer e morrer”. Acho eu que escrever é o mais próximo que chegamos da eternidade: quem escreve sobre alguém o coloca no para sempre. O poder da palavra, o poder que o exército Jade não é capaz de aniquilar, o poder que traz, no âmbito das páginas (que também são vida), o avô de volta.

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Heloísa Iaconis é jornalista. Acesse outros textos no seu perfil do Instagram.

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