Crítica CulturalDossiê de Traços e Tropos

Por Dinheiro ou Pelo Que?

Uma listagem dos motivos pelos quais buscar a realização de algo, em que o dinheiro aparece em local decisivo. Os significados dessa posição são variados de acordo com a ordem e a repetição. Ressalte-se que há sempre um caráter mínimo de audácia nesse tipo de enunciado: é simplório dizer que se trabalha por dinheiro (embora nas ideologias do empreendedorismo e do coaching isso possa ser negativado), mas quanto à relação com a sociedade, quanto a próprio corpo ou quanto a ideais — entre outras possibilidades — é mais difícil afirmar-se nem que seja um pouco “mercenário” (talvez isso se efetive por valores cristãos difundidos historicamente na sociedade brasileira).

Pode-se discutir toda uma filosofia em torno do dinheiro, entendido como veneno/remédio, nas músicas dos Racionais. Na letra de que falamos, isso está presente em vários momentos: enriquecer é desejo de distinção (“vem pra ver como é bom poder chegar na alta cúpula”), sobrevivência (“eu vou sair pra descolar um qualquer // meu pivete já conta pá amanhã no café”), oportunidade de ser generoso (“se o dinheiro constar eu não gasto sozinho”), pragmatismo (“minha cota eu quero em dólar”), valor pessoal (“atrás do cifrão só vai quem tem o dom”) que consiste em assumir o risco (“jogue a moeda pra ver no que vai dar”). Na ordem dos motivos tudo isso tem uma versão sintética:

1 por amor
2 por dinheiro
3 pela África
4 pros parceiro

Em outras palavras, vontade pessoal, necessidade (concreta ou do luxo), ancestralidade e comunidade. O dinheiro é precedido de uma potência individual, que se espraia para valorizar o lugar de onde se vem e quem está consigo. Mas o dinheiro antecede esses dois — tudo indica porque é condicionante da possibilidade de dar atenção a eles. Depois, há uma mudança nessa ordenação, seguida de uma análise da sociedade (postura pragmática, outra vez):

1 por amor, 2 por dinheiro
Na selva é assim:
Você vale o que tem
Vale o que tem na mão

Aqui fica bem claro como sem esses passos não se chega a lembrar das raízes africanas nem a atentar aos seus — quando se vive “na selva” (a truculenta cidade), o valor é o do dinheiro. A vontade pessoal se realiza por via dele.

Ao longo de um turbilhão de referências que acumula críticas sociais e políticas — descrevendo uma “selva” bem mais definida, com inimigos e problemas mais claros — essa música reelabora os versos acima:

1 por rancor
2 por dinheiro
3 por dinheiro
4 por dinheiro
5 por ódio
6 por desespero
7 pra quebrar a tua cabeça num bueiro

Claro — “não existe amor em SP” —, então, por que avançar? Pela fúria. A repetição do dinheiro nos três graus seguintes martela no fundo que é tudo pela moeda (“a ganância vibra…“). A referência ao passado agora é o rancor; o sentimento sólido agora é o ódio. O item 7 parece ir por um caminho do sadismo ou da violência gratuita, com essa referência à sujeira. Diferente da anterior, não há saída, ascensão, redenção, justiça, nada — só essa roda de brutalidade girando contínua, esse lobo correndo atrás da própria cauda.

Não sou capaz de julgar a parte dessa música, quase o todo, que está em japonês, mas por essa tradução, é uma música cantada por uma espécie de Lolita, que seduz o pai com fofura (“papai está prestes a ser enganado pelo meu sorriso angelical”) e, aparentemente, sexo (“eu descobri o segredo da mamãe”). Já neste trecho em inglês:

One for the money
Two for the money
Three for the money
Money! Money! Money! Money!

Não há outro valor — só o dinheiro, repetido com insistência ainda maior que a da canção anterior. Não há o social, tão marcante nos exemplos anteriores: a personagem é individualmente egocêntrica, manipulativa, demoníaca — como se descreve (“rosto de anjo, sorriso do diabo”; “eu sou uma ótima diabinha”).

 

 

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