ContosLiteratura

Aplicativos de Idade

Primeiro todo mundo usou o aplicativo para gerar o seu eu rejuvenescido. Tinha só que furar o dedo e pingar uma gota de sangue no sensor de digitais: em até quarenta minutos chegava o motoqueiro com a criança na caixa.

Não parecia tanto assim com a gente, se fosse lá olhar nas fotos de época dava pra notar marcantes discrepâncias; mas a semelhança era suficiente. Nas primeiras versões do aplicativo, podia-se configurar o clone com idade de poucos meses a quatro anos. Pedi um eu de três. Uma fofura que só. Fiquei comigo no colo um bom tempo, meio bobo, como se eu fosse um filho meu.

Mesmo consciente de que os clones lúdicos têm vida curta, me peguei pensando se eu me tornaria o que me tornei. Se o rapazinho que brincava com as peças de montar não fosse se desfazer em um nuvem de carne gaseificada e nanorrobôs higienizantes em poucas semanas, ele cresceria para ser o que sou? Não, né? São muitos fatores que condicionam essas coisas.

Montei vários desses, maiorzinhos também, quando o aplicativo ganhou mais recursos. Eu de seis, eu de nove, eu de doze. Jogamos bola e videogame. Até os levei pra “escola”: umas encenações de colégio que grupos de usuários do programa organizam para poder observar seus eus estudandinhos. Eu parecia aplicado; não lembro de ser assim. Estava pensando ali caladão em tudo o que eu pensava na época? Ou esse eu é vazio? Por mais que a tecnologia avance, sentir dentro é diferente de por fora.

Mandei fotos dos meninos para a minha mãe, ela ficou enternecida no começo: “Olha, você, que gracinha!”. Mas ela não gosta mais nem de saber que faço isso, fica muito triste quando eles se desfazem. A vida na época dos mais velhos era algo muito excepcional, então eles não conseguem se adaptar às coisas de hoje.

***

Com a mais recente atualização, a moda virou produzir os velhos que seríamos. Não vinham na caixa nem de moto; a empresa emitia o espécime e o punha para “trabalhar” em alguma locação. A gente ia lá e podia olhar, conversar com eles. Se fossem fabricados bem idosos, podíamos levá-los para morar conosco, tipo parentes de que eles se esqueceram ou algo assim. A questão é que diferente das crianças os mais crescidos funcionam com alguma ilusão.

Encomendei um eu de sessenta e três anos. Supostamente o algoritmo escolhe a locação com base nos seus dados: vasculha as suas atividades, faz prognósticos e decide. De algum modo, então, devo chegar a essa idade como vendedor em uma banca de frutas no centro da cidade. Empreendimento que seguia aberto à noite, até tarde, por algum motivo. Foi lá que eu fui me encontrar, a rua iluminada por um amarelo-âmbar. Eu trabalhava. Aplicado.

“Boa noite, senhor. Tem fruta boa aí?”, disse, sorrindo. O rosto dele parecia uma profecia realizada. Eu avaliava cada traço me dizendo “mas como?” e concluindo “sim, sim, é claro”. As minhas olheiras, os vincos na testa, eram como sementes: nele, era como se as linhas tivessem enfim sido preenchidas de escrita. “A goiaba tá madurinha”, eu respondi. Estava satisfeito com o ponto onde tinha chegado? Mudaria alguma coisa? Ele me instigava.

Fui todos os dias à barraca, aproveitando ao máximo a validade do clone. Eu me dizia: “Lá vem o rapaz saudável! Que vai levar hoje?”. Eu me tornei um bom conhecido, quem sabe até um bom amigo de mim mesmo. Comecei até a lamentar que tivesse de desaparecer. Eu teria tanta afinidade com outros eus envelhecidos que ordenasse à loja? Um eu de oitenta e sete me diria tanto? Naquele que — ele não sabia, é óbvio — seria seu último dia, combinei de irmos a um bar próximo, beber algumas.

Lá ficamos até a madrugada. Eu estava dando a mim uma boa dose de juventude, eu disse. Eu virei um outro gole e retruquei que estava era recebendo lições de maturidade. Eu sorri com falsa modéstia: “Que maturidade o que… os jovens é que sabem de tudo. Se não sabem, de qualquer jeito tem a faca e o queijo na mão”. E, rindo alto na avenida desabitada, “os velhos não tem queijo nenhum e a faca que têm está no seu pescoço!”. “O senhor tem muito tempo ainda”, menti. “Que nada. Queria ter o montão que você tem”, rebati, formando desse modo, inadvertidamente, uma cena da pior autoajuda. Senti uma calma raiva de mim.

“Sabe o que eu queria?”, abri, retórico, “queria usar um desses aplicativos de idade e fazer um eu novo. Trinta e dois anos, por exemplo. Só pra olhar, lembrar como era”. “Aconselhar?”, questionei. “Ah, isso não. Pra que? Somem tão rápido”. Concordei, calado. Então me ouvi dizer: “A única coisa que eu podia falar de todo jeito era que eu teria feito tudo diferente”. “Como assim?”. “Ah. Diferente.” Convenientemente, melodramaticamente, foi aí que desligou.

De repente, parou de piscar. O olhar estralado lhe dava uma expressão assustada. A pele descorou grau a grau, até a transparência, e se desagregou em milhares de partículas baças, um enxame que foi por sua vez implodindo, criaturazinha por criaturazinha, sem som. No ar, evanesceu como o vilão definitivo de um videogame. Fiquei só comigo e com meu copo.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *