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Mauro Benente sobre liberação pessoal em Foucault

Resumo de leitura de

Crítica, cuidado de sí y empresario de sí: Resistencia y gobierno en Michel Foucault
Mauro Benente, 2017, revista Co-Herencia

O autor analisa a obra foucaultiana do ponto de vista dos caminhos de emancipação (para usar um termo da teoria crítica) que ela traz no seu bojo. Assim, ele trata dos conceitos de crítica e de cuidado de si. No que se refere à crítica, retoma a reflexão de Foucault sobre Kant: é a atitude esclarecida que nos retira de uma menoridade; a crítica, dessa forma, aparece como uma “não-servidão voluntária” (a expressão, me parece, é de Benente; sugere um intertexto interessante com La Boétie), um “dessujeitar-se” por meio da razão. No que tange ao cuidado de si, dois movimentos se sobrepõem. Primeiro, aquele em que Foucault, discutindo Baudelaire, fala de uma “estética da existência”, de fazer-se a si “como uma obra de arte”. Essa atitude reinventiva é assimilada à ética do ocupar-se a si mesmo que o filósofo francês identifica nos gregos clássicos. Essas duas posturas seriam, para o autor, maneiras de se desvencilhar das determinações, do assujeitamento implicados pelos poderes disciplinares e pelas redes de saber/poder. (Tendo a discordar desse desenvolvimento; pelo que tenho lido, tem me parecido impróprio sobrepor essas duas instâncias, baudelariana e helênica, mas é comum nas discussões do campo; com efeito, o próprio artigo em pauta reconhece que Foucault não filia cuidado de si e resistência. Outro elemento a que me oponho: o autor parece implicar que é possível uma subjetivação que esteja fora da malha saber-poder, sendo que não seria produzida por essas injunções, mas criada a partir de si própria. Isso não me parece adequado; no mínimo, restabeleceria um sujeito como origem, o que é inaceitável no escopo do projeto foucaultiano). Por fim, Benente fala do “empresário de si mesmo”, forma que nasce com o neoliberalismo e com a ideia de “capital humano”. Ele encontra aí uma certa aporia: apesar de ser um trabalho do sujeito sobre si, esse modelo não lhe traz qualquer “liberação”. (Não sei se há aporia; é a pressuposição de que o cuidado de si libera o que gera o problema; porém, nos volumes da História da Sexualidade, é claro que as subjetivações ali analisadas também estão encerradas em um quadro de relações de poder e saber.)

Mais:

No blog Metacademia, duas problemáticas evidenciadas pelo texto:

Há possibilidade de escapar em Foucault?

Com que critérios julgar as diferentes práticas de si?

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