Pororocas de Ideias

Individualismo

Mas convém colocar uma questão mais geral a propósito desse “individualismo” que se invoca tão frequentemente para explicar, em épocas diferentes, fenômenos bem diversos. Sob uma tal categoria misturam-se, de maneira frequente, realidades completamente diferentes. De fato, convém distinguir três coisas: a atitude individualista, caracterizada pelo valor absoluto que se atribui ao indivíduo em sua singularidade e pelo grau de independência que lhe atribuído em relação ao grupo ao qual ele pertence ou às instituições das quais ele depende; a valorização da vida privada, ou seja, a importância reconhecida às relações familiares, às formas de atividade doméstica e ao campo dos interesses patrimoniais; e, finalmente, a intensidade das relações consigo, isto é, das formas nas quais se é chamado a se tomar a si próprio como objeto de conhecimento e campo de ação para transformar-se, corrigir-se, purificar-se e promover a própria salvação. É claro que essas atitudes podem estar ligadas entre si; assim, pode ocorrer de o individualismo ainda exigir a intensificação dos valores da vida privada; ou, ainda, que a importância atribuída às relações consigo seja associada à exaltação da singularidade individual. Mas esses vínculos não são constantes nem necessários. Encontrar-se-ão sociedades ou grupos sociais — tais como, sem dúvida, as aristocracias militares — nos quais o indivíduo é chamado a se afirmar em seu próprio valor, por meio de ações que o singularizam e que lhe permitem prevalecer sobre os outros sem que se tenha que atribuir uma grande importância à sua vida privada ou às relações de si para consigo. Há também sociedades nas quais a vida privada é dotada de grande valor, onde é cuidadosamente protegida e organizada, onde constitui o centro de referências das condutas e um dos princípios de sua valorização; é, ao que parece, o caso das classes burguesas nos países ocidentais no século XIX; mas, por isso mesmo, nelas o individualismo é fraco e as relações de si para consigo não são desenvolvidas. Finalmente há sociedades ou grupos nos quais a relação consigo é intensificada e desenvolvida, sem que por isso, e de modo necessário, os valores do individualismo ou da vida privada encontrem-se reforçados; o movimento ascético cristão dos primeiros séculos apresentou-se como uma acentuação extremamente forte das relações de si para consigo; mas sob a forma de uma desqualificação dos valores da vida privada; e, ao tomar a forma do cenobitismo, manifestou uma recusa explícita daquilo que podia haver de individualismo na prática da anacorese.

História da Sexualidade – O Cuidado de Si, Michel Foucault, p. 55-56

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