“Plot twist” me parece nome de refrigerante. Provavelmente ou obviamente porque me lembra Pepsi Twist. Este último, uma Coca-Cola com outra marca e além disso um pouco de suco de limão. Já aquela expressão denota um momento de virada em uma narrativa. Um cavalo de pau. A hora e a vez de Macabéa e a hora da estrela de Augusto Matraga. Oportunidade em que, por exemplo, um sujeito qualquer bebe um refrigerante de cola com limão; acabando o seu almoço, se apercebe com o mesmo desalento diário e curto que é preciso em poucos minutos retornar ao trabalho, e à simples menção da palavra “trabalho” lhe é evocada no cérebro a agenda imediata de tarefas; com um gesto mental ele sacode as atividades futuras, se recusa a trabalhar antecipadamente, se apega a esses momentos breves dedicados à digestão e a uma contemplação com a graça de deus bovina; ele retoma o copo com um suspiro, bebe enfim mais um gole do seu Plot Twist, e nesse instante começa a perceber que desde há muito um burburinho tenso se avoluma às suas costas, nota vozes enraivecidas que se intensificam e – exatamente quando desce o gole ebuliente do refrigerante na faringe – se joga para o lado, no susto, pois que um corpo fora atirado contra o balcão. No chão, sacode a cabeça, vê o homem atacado, sua boca sangra, ouve os berros do homem que o atacou, na ponta do seu braço estendido há um revólver, “você vai me entregar meu dinheiro, seu filho da puta, já teve bastante tempo”, o nosso protagonista observa a arma com terror, o som do copo caindo e se estilhaçando – a quebra do vidro sempre aguda e trágica –, ainda vibra no seu ouvido. “Bento, eu não tenho como te pagar, não tenho”, se desculpa o outro, se escora no balcão, avança com as mãos suplicantes na direção daquele que o cobra. “Ninguém vai sair dessa merda agora, fecha a porta do restaurante, caralho!”, alguém obedece, alguém pede “calma, gente, por favor, calma”, o nosso protagonista não pode esconder de si uma excitação, lá no fundo está animado de verdade, algo aconteceu, conjetura tão compenetrado que até se distancia da situação de crise, fica de pé, pega a lata e dá mais um gole no seu Plot Twist, apenas um pouco antes da nave alienígena estacionar violentamente na avenida lá fora, as ondas de impacto rompendo num átimo vitrines, vitrais, portas transparentes, janelas – ruídos cristalinos e multifocais fazendo contraponto ao longo urro de baleia branca do veículo invasor fazendo a baliza. Ah, meu Deus do céu, ah, meu Deus do céu, a população do restaurante se divide entre quem tenta se proteger nos fundos ou se esconder na cozinha e quem se aproxima da saída para testemunhar o evento; o nosso protagonista preserva consigo por osmose a lata, dá passos relutantes até a rua e olha: exércitos ocupam o asfalto; de um lado, soldados de pele verde, tentáculos pequeninos brotando dos pescoços, antenas peludas saindo dos narizes; do outro, compatriotas humanos (engraçado, pondera, que tenha lhe vindo esse termo, “compatriotas”). O frenesi das metralhadoras no solo se soma aos disparos de lança-foguetes a partir dos helicópteros. A nave anuncia em som altíssimo, cheio de graves, em inúmeras línguas terrenas: “Este planeta pertence agora à Valconas, herdeiro de Velonis, devorador de éticas, patrono do fulcro”. Parece tanto com um filme que o herói desta história sente falta de uma pipoca, pelo menos tenho um refrizinho, dá outro gole no seu Plot Twist, o refresco e o açúcar lambem a língua conforme as nuvens se abrem num buraco negro de luz e o próprio Cristo surge, a mão direita com o indicador e o médio tesos, sabe? Em volta o séquito de músicos e guerreiros angélicos. Os recém-chegados assistem ao conflito e parecem tão surpresos quanto nós – a reedição da Bíblia no futuro registrará que não podia ter sido eleito dia pior para realizar a escatologia, o ato de salvação e de condenação final da humanidade. Perante tal, Cristo conclui que a humanidade não pode ser salva ou condenada por ninguém que não fosse Ele, pelo menos não sem que tivesse algum papel, afinal Ele não tinha vindo até aqui por nada. Cristo ordena portanto que a sua tropa forneça apoio. Os anjos musicistas fazem dançar suas espadas de vidro, emitindo o atrito com o ar sons como os daqueles conjuntos de garrafas desigualmente preenchidas de água, os militares alados batem com as harpas na cuca dos alienígenas, os enforcam com as cordas extraídas dos instrumentos. “Pode ter o furdúncio que for que a gente vai até o banco e você vai sacar o caralho que estiver lá”, Bento prende a mão do devedor nas costas, conserva a pistola na sua nuca, só falta um pouquinho, eu devia ter comprado uma garrafa de 600, o nosso protagonista leva o alumínio até a boca e, sim, sim! Bebe mais um gole do seu Plot Twist, “este planeta pertence agora à Valconas, herdeiro de Velonis, o corruptor dos símbolos, o aliciador dos arquétipos”, o último gole do seu Plot Twist, “é agora e é você, homem, que deve escolher, que deve escolher o destino do mundo”, quem é que fala dentro da sua cabeça essas palavras potentes o suficiente para liquidificar no espaço mafiosos e alienígenas e anjos, a realidade à frente dos seus olhos torna-se um caldeirão de imagens, borbulham hitleres e variados aristóteles e souvenires feitos em massa para serem vendidos como vivências únicas de cidades turísticas e medalhas olímpicas e fatos há tanto esquecidos mas por sorte anotados em materiais infelizmente muito perecíveis, “escolhe, homem, deve o mundo persistir ou deve ele perecer?”, o nosso protagonista flutua na escuridão. Iluminado por fora sem foco iluminador visível? Iluminado por dentro? Boia no bojo do bruxuleio: deve selecionar uma dentre todas essas possibilidades? Deve acoplar o ferro preto, batido e antigo à boca e entornar a torrente grossa do tudo? “O que você escolhe, homem? Você deve escolher…”.

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