“Somos todos Lula”, anunciara no discurso Lula, mas não esperávamos de fato nos tornarmos Lula. Já naquele momento mesmo creio que sentimos um leve transtorno, um arrepio nos braços. Uma secura na garganta que não passava bebendo água e que se desenvolveu no minutos seguintes em uma rouquidão progressivamente forte. As pessoas tossiam com força, buscando expelir o que quer que fosse que estivesse preso nas vias internas. Homens com voz mais fina, mulheres, crianças, tossindo, sem que pudessem evitar que suas vozes baixassem ao grave, ao áspero. Abalados por essa primeira transformação coletiva, sofríamos ao mesmo tempo a segunda: de início uns poucos fios, mas logo a barba grossa tomou os rostos, em alguns estilo sindicalista, preta; em outros, branca, paz e amor. “Somos todos Lula”, percebemos aos poucos, “deus do céu, somos todos Lula”.

As ruas cheias à frente do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, cheias de lulas. Mas também nas casas são-bernardenses a além; pipocando um Lula aqui e um Lula ali nas residências da Grande São Paulo e da capital, nas salas de estar assim de repente avôs olhando álbuns velhos de fotografia viravam o Lula, nas cozinhas pais e mães preparando refeições tradicionais para suas famílias viravam o Lula, crianças e cães e peixes de aquário viravam o Lula; a epidemia se alastrou com velocidade cada vez maior a todos os pontos do país. Tentávamos, em desafio, dizer “amigo”, “parceiro”, “colega”, até mesmo “mano”, “brother”, “truta”, qualquer coisa, em desespero, mas dizíamos “companheiro!”, não podíamos impedir, surgia inevitável e justo, “companheiro, companheiro!”.

Para alguns, talvez pela força moral, pela resistência mental ou pelas necessidades narrativas de algum deus escuso, o processo foi mais lento. No Congresso Nacional, o aparecimento dos lulas inaugurais foi respondido pragmaticamente; resolveu-se atentar a desvios antes ignorados do parlamentar transformado (“Não é porque ele agora se tornou Lula que agimos, mas pelo reestabelecimento da ética!”), se sustava o seu mandato e o jogavam aos leões, isto é, ao Supremo Tribunal Federal, que fazia a degola pinçando as juriprudências e artigos da Constituição mais convenientes. A estratégia não só se exibiu insustentável — pois mais e mais deputados e senadores se tornavam Lula — como um dado sugeriu que a tentativa de resistir estava fadada à derrota: a presidente do STF, Carmen Lucia, tornou-se Lula. Carminha, como ficou conhecida carinhosamente na internet, ainda de rosto magro, ainda de cabelos com curvas bem arqueadas, grisalhos, ganhou uma barba e uma voz forjada na greve.

Temer-Lula, é claro, sofreu muito sem poder enunciar mesóclises ou recitar frases em latim (sua mente travava, expressões simples inundavam sua mente, um “verba volant” se transtornava numa metáfora futebolística tipo “quem não faz, leva”). Pelo contrário, Sergio Moro se manteve estoico, embora indeciso entre se estava em uma variação de “O Alienista”, de Machado de Assis, ou num filme de zumbis. Homem reto, laborioso, passou a emitir com uma rapidez de piranha inúmeras ordens de prisão, baseadas em apartamentos não só no Guarujá, mas também em São Vicente, Santos, Praia Grande, Itanhaém, Cubatão. As penitenciárias não se encheram de lulas: já estavam cheias de lulas. A polícia não cumpriu sua função de prender lulas: eram todos os oficiais Lula, o japonês da Federal mantendo a tornozoleira eletrônica de condenado a quatro anos de prisão, olhos puxados sob os óculos escuros sobre a barba espessa.

De Trump e Obama a Putin e Merkel: Lula. Na CBN e na rádio Bandeirantes todos os colunistas transmutados em Lula falavam mal de si mesmos e se culpavam por tudo. Moro teve de aprofundar o paladino em si; invadiu supermercados e armazenou tudo o que pode em local seguro; invadiu delegacias e roubou armas. “Eu sou a lenda”, gritava ele enquanto abatia lulas e as ruas enchiam de sangue, “eu sou a lenda, desgraçados”, levado ao combate sem fim, até que enfim cercado, de pé sobre um carro, ilha cercada de lulas, brandindo sua metralhadora, “eu sou a lenda”, “eu sou a lenda, filhos da puta, eu sou a lenda, filhos d–” — então travou, não pode repetir, teve de dizer:

“Eu sou a lenda, companheiros!”

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