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Os Pré-Socráticos

A ágora estava agitadíssima.

Voavam ânforas cheias d’água e dali a pouco começaria o incêndio.

Ouvia-se a turba longe. Nos campos, os trabalhadores não se questionavam sobre o que discutiam, hoje, os filósofos: sua ladainha exaltada apenas compunha com o sol quente e o vento seco o cenário no qual executavam a repetição da vida. Pelo contrário, de pé nas arquibancadas a plateia sentia-se partícipe de algo imprescindível e urgente.

De fato, quem visse a expressão no rosto dos filósofos teria de se esforçar para resistir à sensação de que uma questão de vida ou morte se decidia ali. Aliás, por um lado, era, inegavelmente: tratava-se de como passou da morte à vida (para destarte prosseguir da vida à morte) tudo o que existia: tratava-se de como as coisas vieram à ser.

Até uns vinte minutos atrás a discussão tinha transcorrido sem excessos de beligerância. Tudo se transtornou com a chegada de Tales e dos seus ultimatos em forma de ânfora.

— Água! Eu tô falando pra vocês que tudo veio da água!

Tinha trazido cerca de dez desses pequenos vasos em uma plataforma de madeira sobre rodas. Assim que lançava um deles, rapidamente tomava a alça de outro, fechava o olho para mirar, e atirava. A terracota se espatifava, cenas da vida grega pintadas em âmbar, ocre e preto ricocheteavam fracionadas em pedaços pontudos, os nobres pensadores e seus acólitos, além do público normal, corriam de um lado a outro em busca de abrigo, as mãos sobre as cabeças, tropeçando nas poças e dando encontrões.

— Por Zeus, Tales! – gritou Anaximandro – não é assim que prova nada!

A próxima ânfora bateu bem na testa de Anaximandro, que ainda deu três passos vagos para trás antes de cair de costas desacordado.

— Cadê o apéiron, Anaximandro?! Cadê? Não bloqueou a minha ÁGUA?

Dizia isso já se agachando para puxar outra ânfora. A mão não achou vaso nenhum. Mas ouviu o riso de Anaxímenes — rasgado, asmático, interrompido pela tosse — ali perto.

— O que? Ofegante, Tales? – disse, puxando fôlego com dificuldade – Quem sabe seja porque é o AR que dá origem a tudo!

Tales bufou.

— Que porra de ar!

— Então para de respirar, filho da puta!

A exasperação não os deixou perceber que sutil a princípio e então cada vez mais intenso um cheiro de queimado ocupava a arena. O calor se intensificou. Os filósofos suavam.

— Tá suando ar, Anaxímenes? Não tá suando ar não, né? Quer água, seu bosta?

— Eu quero – respondeu, sufocado – eu quero é uma brisa!

Porém o ambiente cada vez mais turvo, escurecido pela fumaça, finalmente chamou sua atenção. Assim que notaram o que acontecia — as galerias em todo o entorno da ágora estavam repletas de flamas, que queimavam de montes de palha obviamente dispostos para esse efeito — não tiveram dúvida, a culpa do ato não era um problema filosófico.

— Heráclito!

O piromaníaco ouviu seu nome e começou a bater palmas, lentamente, com escárnio.

— Mas que sagazes. Então quer dizer que são filósofos mesmo?

Anaxímenes começou a atirar as ânforas contra o fogo, inutilmente. Tales passou a avançar contra Heráclito. Os olhos irritados, vermelhos, acrescidos à raiva, lhe proporcionavam uma aparência aterrorizante. Cuspia no chão, bufando.

— Ora, ora. Mas então eis o fogo, que come o ar. E eis que a água precisa de bem se esforçar para lhe causar qualquer coisa. Quem é que pode mais?

O tabefe que estalou no rosto de Heráclito respondeu: quem pode mais é a minha mão na sua cara. O incendiário se recuperou rápido do choque e logo ambos se atracavam. Nas galerias, trabalhadores chamados às pressas atuavam para conter as labaredas. Uns se chateavam por ter de lidar com as chamas iniciadas pelos filósofos. Outros, divertidos pelo caos, tinham gosto de quem botava fogo nas coisas. Ainda alguns, tomavam notas de como por a ágora abaixo, bastaria fechar aqui, bastaria entufar palha acolá.

Levando socos na têmpora, subindo o almoço à garganta, mesmo assim Heráclito notou isso, essa alegoria tão simplória e insidiosa. A vista chorando de ardido, contudo surgindo ali o brilho da descoberta no olho sedento de espanto. As posturas sobre o fogo… é isso a filosofia, as filosofias… Conforme a atmosfera desanuviava, Anaxímenes chegou a uma ideia semelhante, mas, claro, focada no seu elemento predileto. Estatelado na terra, os olhos mirando o céu claro na tentativa de controlar a imensidão esfumaçada, a filosofia são as qualidades do ar, a variação das substâncias suspensas… Sentando-se sobre, imobilizando o seu adversário mais recente, músculos dos ombros e das costas puídos, nós dos dedos sangrando, Tales assistia à água derrotar o incêndio, e considerava a batalha incoerente e recidiva entre o saber e o não-saber, as quantidades e as intensidades de um e outro sendo decisivas da vitória eventual, não as essências. Nem sempre o fulcro vence…

Anaximandro, no entanto, sonhava com o apéiron, princípio coringa, um faz-tudo ou um tanto faz. Todos os deuses, pequenos e alados como mariposas, rodeavam o apéiron — Atenas e Hades, Hefestos e Afrodite, Hermes e Apolo, submetidos, seduzidos. No fundo, como um zumbido, podia ouvir gritos de gente, expressões de raiva e despeito. Sons de um mundo esmaecido pelo real de que se lembrava agora por concessão onírica.

Não soube dizer quando acordou, a cabeça muito dolorida, se a filosofia era um fascínio em relação ao desdobramento da origem concentradíssima ou a mente embasbacada pela insignificância daquilo que concentra todo significado ou — foi a opção que o apaixonou — se a filosofia era um sonho que sufoca os sons da fúria, que funciona à revelia da luta que o sustenta e destrói, arrancando do nada uma pequena palavra sobre o tudo.

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