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Lábios e Coração

Uma coincidência de recursos interessante entre um poeta taoísta chinês do século VIII e a banda canadense Arcade Fire. Ambos trabalham a imagem da fala (pela metonímia dos lábios) e um conceito do que é verdadeiro e distanciado (figurado pelo coração).

Han Shan escreve:

I see people chanting a sutra
who depend on its word for their ability to speak
their mouths move but their hearts do not
their hearts and mouths oppose each other
yet the heart’s true nature is without conflict
so don’t get all tangled up in the words
learn to know your own bodily self
don’t look for something else to take its place
then you’ll become the boss of your mouth
knowing full well there’s no inside or out

No poema, a boca canta um sutra — textos canônicos do budismo — mas o coração não acompanha, isto é, falta autenticidade ou conexão com o que há de próprio naqueles ensinamentos. “Não se emaranhe com palavras”, existe uma verdade abaixo com que devemos nos ligar, é ela que vitaliza os versos, e não o contrário.

Já em “Antichrist Television Blues“, música do álbum Neon Bible, do Arcade Fire:

now I’m overcome
by the light of day
my lips are near, but my heart is far away
tell me what to say
I’ll be your mouthpiece

“Meus lábios estão próximos, mas meu coração está tão longe” — ou o sujeito está reduzido ao silêncio porque seu sentimento retira a sua atenção das coisas que o circula, buscando algo alhures, ou não pode falar porque o que lhe daria a capacidade de falar está em outro lugar. Ter uma boca não bastará então: é preciso que algo a tome para si como instrumento para que seja possível dizer. As palavras também valem pouco aqui: até que a verdade venha, elas recalcitram e não se efetivam.

As duas criações se opõem porém no lugar em que posicionam a sua fonte de realidade. Em “Antichrist Television Blues”, trata-se da transcendência — o personagem cantado pela banda é um fanático religioso, desesperado pela quietude do seu deus e pelo fato de que sua filha não quer se submeter a ser uma forma de louvor. Já em Han Shan, trata-se da imanência: “conheça o seu eu corpóreo” e saberá que “não há dentro e não há fora”.

Assim, o homem da canção, que se pergunta “serei eu o Anticristo?”, talvez possa aprender algo com o poema chinês.

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