[experimento em escrita automática #2]

Hugo soube imediatamente que o Sol comera os doces que ele havia deixado na geladeira. Bufou. Caminhou de um lado para o outro tentando dar uma forma à sua raiva — sabia que não podia confrontar o Sol em fúria, afinal, o Astro Rei era o Astro Rei e “quem mexe com fogo acaba queimado”, hahah, riu ele, risada em meio à raiva, feliz em meio à fúria. Enfim se decidiu e partiu em direção à janela. Abriu-a e olhou para cima: lá estava o culpado, ardendo amarelo e brilhante como se nada tivesse acontecido. “Muito bem, Godofredo!”, gritou Hugo — se você não sabe, é este o nome do Sol, uma homenagem ao cientista alemão Godofredo Valskiburgen, chamado por seus amigos de “Salsichão Verde”, porém não afamado por esse fato, mas sim porque pode descobrir a cura da Aids na década de 1957 (a fórmula, infelizmente, foi perdida, pelos mesmos motivos, ou pelo menos muito similiares, que o levaram a ser apelidado de “Salsichão Verde”). O pai do Sol era um grande entusiasta de Godofredo, pois o pai do Sol admirava todos os que se veem próximos à glória e por um fiapo de acaso deixam passá-la. Os demais filhos do pai do Sol todos foram batizados com o nome de algum herói por pouco e fracassado por fim. Gadamedes e Galeana, Gustavo e Geremias (com o G mesmo, um erro do cartório por conta do qual o original menino Geremias sofreu muito, desde a escola, com a gozação dos demais alunos, até os tribunais, onde se viu enredado em um trama internacional que não cabe nesta história e que poderia resolver-se com apenas um J). Hugo estava com a sua face de bronca, olhando fixo, com a testa um tanto enrugada. O Sol fingia que não via? “Olha só, Godofredo! Eu tinha guardado esses quindins pra mim!”. Nada. “Godofredo, poxa vida. Você já comeu a linguiça que eu deixei guardada! Você já comeu meu panetone! Caralho! Tu é estrela ou buraco negro?”. Nada. O Sol fazia a sua melhor poker face? Sabe-se que o Sol pode enganar centenas de etnias ao longo da história, fez-se de deus para uns e para outros, inclusive entre inimigos, gozando da benevolência de todos, divertindo-se com os sacrifícios (dos quais não retirava nenhum influxo mágico de energia, mas que admirava pelo prazer estético). Mas não se tratava disso agora. Godofredo dormia. Não era algo comum — na verdade era a primeira vez que isso ocorria desde que o mundo é mundo. As estrelas em geral ou queimam ou explodem, “mas não dormem no ponto, hahah” (Hugo poderia ter usado essa expressão e ter achado graça nela; você sabe no entanto que estamos em meio a uma digressão e não é o caso; Hugo está agora parado nesse interstício temporal criado pelas minhas técnicas literárias [impressionantes, não?] e nem vive nem morre, nem prossegue nem estaca; é como o gato de Schrodinger, ou menos do que o gato de Schrodinger; Hugo, você me ouve? Hugo, você me escuta como se debaixo do oceano, ruídos distantes, sinais de um narrador desconhecido, do único deus que você pode conhecer?). Godofredo dormia; estava satisfeito e contente, estava de barriguinha cheia, adorava quindins — afinal, tinham a mesma cor que ele — e ele ficou olhando a lua ir de lá pra cá, de cá pra lá, piscou uma vez, piscou duas, quando viu nem viu, já estava sonhando. Com o que Godofredo sonhava? Godofredo sonhava com o vermelho e o amarelo e o branco, glóbulos de cada qual espocando contra um fundo infinito e escuro, nos espaços recortados pela epilepsia dos asteróides e meteoritos, anjos e papagaios, sorvetes com uvas passa e dragões de Komodo fantasiados de Lula (veja, isso era um sonho, não se pode esperar muita lógica, é claro que a referência de Godofredo era o universo como todos nós o sabemos, porém o inconsciente mistura as coisas, enxerta alguns elementos desnecessários, de repente o que era se torna uma coisa estranha, de que você tem que ficar arrancando as camadas com cuidado como se fossem etiquetas de preço de cima dos objetos que você comprou, ou alguma metáfora melhor que essa, enfim, separando camadas, reorganizando quebra-cabeças, você tem de achar o sentido em meio à entropia). Sonhava. De repente, em meio às cores, viu Hugo (o som de fora pode penetrar no inconsciente, ao que é rapidamente remanejado para caber na arquitetura do onírico), Hugo, flutuando como uma mulher pintada por renascentistas no bruxuleio das cores, aureolado de luz, Hugo estava bravo, não, Hugo estava cândido, e estendia sua mão com afeto, não, exigia algo, Hugo, Hugo, veja, as colorações estouram, não é tão bonito? Hugo, você pode me ouvir? Hugo! Venha ver a grandeza de tudo. Tenho uns quindins. Guardei um pra você.

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