As investigações de Lúcia Maciel Barbosa de Oliveira estão na intersecção entre cultura e informação, no estudo de como circulam sentidos e se formam práticas sociais. Docente da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, Lúcia é doutora em Ciência da Informação (acesse a sua tese: “Corpos Indisciplinados: Ação Cultural em Tempos de Biopolítica“), mestre em Ciências da Comunicação, graduada e licenciada em História. Nesta entrevista, ela comenta os seus princípios como pesquisadora e as condições da pesquisa em sua área: “A Ciência da Informação ainda não trabalha de maneira adensada a dimensão social das ações de informação”.

Como é a sua relação com a Ciência da Informação, por que se interessou em aprofundar-se nesse campo em vez de outros?

Interessa-me, sobretudo, a interface entre Informação e Cultura — área de concentração do nosso Programa em Ciência da Informação — dois elementos fundamentais da contemporaneidade, instâncias centrais dos processos sociais, do desenvolvimento humano e da consolidação democrática. Interessa-me, pessoalmente, compreender a informação como fenômeno social, que sustenta práticas políticas, estabelece campos de força não sendo um fenômeno apolítico ou neutro, mas inserida em contextos culturais que lhe dão peso. Gosto da perspectiva exposta, por exemplo, por Rafael Capurro, para quem “nenhuma Ciência da Informação que não perceba a dimensão social de seu objeto de investigação pode subsistir no século XXI”.

O que mais te interessa hoje na Ciência da Informação? Como os seus trabalhos anteriores te levaram a isso e o que você espera realizar nesse sentido?

Acho que a resposta anterior responde, de certa maneira, a questão posta aqui.

Minhas pesquisas se guiam por inquietações no campo social a partir da perspectiva de como criar as condições para a circulação dos diferentes sentidos que os sujeitos e grupos produzem, sem o que a consolidação democrática não se dá. A questão do outro — o reconhecimento da alteridade, o drama do reconhecimento — talvez seja hoje a questão política central.

Quais problemas e potenciais você vê na pesquisa em Ciência da Informação na atualidade?

Creio que a Ciência da Informação ainda não trabalha de maneira adensada a questão da dimensão social das ações de informação, a interface entre informação e cultura e a reflexão crítica necessária ao adensamento teórico que leve a aplicações práticas. A tão propalada interdisciplinaridade permitiria uma grande abertura ao estabelecimento de novas relações no campo da Ciência da Informação que ampliaria o escopo das discussões.

O que significa pesquisa para você? O que significa trabalhar com pesquisa?

Significa transformar uma inquietação, algo que nos alcança na dúvida, em um trabalho de interrogação, de reflexão e de crítica a partir de conceitos e teorias, de trabalho de campo, que nos permita elevar a um outro patamar aquilo que experimentamos como problema.

O que você (critérios, técnicas, posturas) aprendeu durante o trabalho que acabou por balizar a sua prática? Que conselhos daria, de forma geral, ao pesquisador em atividade? 

Que não é possível fazer pesquisa sem comprometimento, sem uma ampla compreensão daquilo que o passado engendra como questões para o presente, e que nós, no presente, interrogamos de maneira crítica para abrir possibilidades de pensar não apenas o presente, mas sentidos para o futuro. E que pesquisar exige ousadia.

***

Esta matéria prossegue nossa série de entrevistas com pesquisadores. A primeira foi com Marivalde Francelin, meu orientador.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *