[Publicado no Facebook em 26 de outubro de 2016]

Homem de meia idade no metrô, pele acobreada, barriga saliente debaixo da camisa social, uns chumaços grisalhos por topete. Olha para uma mulher de blusinha de alça sentada um metro a frente e comenta ao seu colega — um descendente de oriental também de meia idade, também fantasiado de escritório: “Peitinhos brancos assim, né”. Fala só uns poucos tons mais baixo do que se verá que é o seu normal. Pequena pausa, muda de assunto: “Falei para a Marta que ela vai ficar grávida e tem que tomar cuidado com as estrias e a celulite. Que ela tem uma bunda muito grande e fica grávida estoura. Ela ficou desesperada”. O colega anota: “Vai ser uma grávida chata. Já é chata agora. Imagina grávida”. Pequena pausa, o barrigudo passa a contar umas aventuras sexuais suas: “Eu falo pra ela: manda nudes. Ela manda. Só de calcinha, sutiã. ‘Apaga?’ Apago. Depois de novo. Geralmente domingo assim. ‘Vou tomar banho’, aí manda”. O outro pergunta sobre uma outra moça com quem estava envolvido. Confirma que já não está mais: “Tá namorando agora”. Pequena pausa. “E também ela mandava mal demais”. “Ficava esfregando, você falou.” “É, subia em cima, ficava esfregando.” Ele faz curtos movimentos para trás e para frente. Acrescenta: “Você tava sentado no sofá, ela vinha em cima, aquele peso todo. Ficava de quatro, não fazia aquela curva”, faz a curva no ar com a palma da mão, “sabe? Aquela empinada. Tem vergonha”. Pequena pausa. “Agora eu tô mais a casada. A do policial. Tem uma rabeta monstro. Quadril monstro. Ela fala: ‘Vai logo’. Vai logo nada. Fico uma hora. Uma hora e dez. Foda-se”. Lá fora, passa uma mulher, ele aponta pela janela: “Empresária”. O colega não dá atenção. Abaixa um pouco a cabeça para vê-la ao longe: “De azul”. O colega ainda não lhe dá atenção.

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