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Atenção às Demandas do Debate

O professor e pesquisador Pablo Ortellado apontou a prevaricação jornalística na cobertura da morte do juiz Teori Zavascki, feita contraditoriamente por se querer responsável:

Um ministro do Supremo, relator da Lava Jato, morre num acidente de avião, dias antes de homologar uma delação que incriminaria dezenas de políticos. As pessoas começam a suspeitar que o ministro pode ter sido assassinado. O consumo de notícias sobre o caso dispara, justamente por causa da suspeita, mas a grande imprensa, por “responsabilidade”, não menciona a hipótese de que o avião possa ter sido sabotado enquanto não surgem evidências concretas. Ela trata do assunto como se a possibilidade não pudesse ser discutida a sério, desprezando a preocupação do país inteiro. Enquanto isso, o acesso à má imprensa dispara, já que só ela está discutindo diretamente aquilo com que todo mundo está preocupado.

O efeito de não dar espaço à hipótese de sabotagem, por intenção de não valorizá-la indevidamente, acaba, de forma oposta, a potencializando:

É sempre assim. Surge um boato, a imprensa séria apura, não surge nada sólido e ao invés de fazer uma matéria dizendo “boato nas redes sociais não procede”, ela simplesmente não diz nada, entregando audiência para a má imprensa. Essa postura é pura arrogância. A imprensa supõe que (ainda) é a detentora da verdade social e que se ela não deu, a coisa não existe. Mas se isso algum dia já foi verdade, seguramente não é mais. É assim que ela alimenta o refrão, repetido à esquerda e à direita, de que “isso a imprensa (a Globo/ a Folha) não mostra!”. A descrença na grande imprensa é pelo menos em parte resultante desta postura arrogante. A culpa não é só do algoritmo do Facebook e da polarização. A imprensa precisa atender, sem petulância, a preocupação das pessoas comuns. Está na hora da boa imprensa discutir a possibilidade de sabotagem no avião, mesmo que seja para dizer que é uma hipótese improvável e sem grande apoio em evidências. É possível fazer isso a sério e com responsabilidade. Não só é possível, é necessário.

Existe, portanto, uma necessidade do desmentido.

Note-se que pelo menos Elio Gaspari sugeri uma investigação especial do caso: “Nada a ver com teoria da conspiração, trata-se de dúvida mesmo”.

A propósito, comentei sobre a tal polarização, pelo viés do embate direita x esquerda.

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Relacionado: também analisando a influência da imprensa na difusão de desinformação, escreve Dairan Paul:

Em que bases se assentam os rumores? O jornalismo não estaria na hora de fazer o seu mea culpa? Para Moretzsohn (2014, p. 168), o erro está na ênfase de que informações provêm cada vez mais de pessoas próximas, e não de instituições jornalísticas: “não seria o caso de indagar de onde ‘família, amigos, colegas’ retiram as informações em que ‘as pessoas’ confiam?”. Os rumores não necessitariam de um mínimo de verossimilhança para que se acredite neles? Por exemplo, a afirmação de alguns manifestantes pró-impeachment de que imigrantes haitianos vieram ao Brasil para votar em Dilma é, certamente, absurda. Mas quantas vezes a cobertura jornalística tratou a imigração com um enquadramento positivo? Quantas vezes o estrangeiro não foi representado como um “outro” perigoso, que traria problemas ao país?

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