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Software Biológico

Na semana passada, cientistas americanos deram vida a uma ex-bactéria, uma célula sem material genético, transplantando a ela um genoma sintético. Diz-se que é um dos maiores feitos científicos da história. Pois bem. No Jornal da Tarde de 21.5, o repórter usou um bom recurso para tornar claro o procedimento dos pesquisadores.
Pensando no genoma como um software biológico, o que os cientistas fizeram foi “piratear” o sistema operacional de uma máquina, transferir esse programa para outra máquina e fazer com que a máquina funcionasse normalmente.” [leia completo]
A matéria do JT só erra nisso aqui: “cientistas conseguiram pela primeira vez produzir uma forma de vida “sintética” em laboratório“. A mesma equipe, alguns anos atrás, tinha produzido um vírus. E, mesmo que fosse inédito, os pesquisadores não sintetizaram toda a “forma de vida”, mas apenas o genoma, se aproveitando da carcaça celular. De todo modo, o recurso que destaco, até onde sei, é uma sugestão corrente a quem pretenda escrever jornalismo científico: partir de um exemplo conhecido para ilustrar o desconhecido por analogia. Pesquisando, descobri que a Super Interessante utilizou, em 2007, para o mesmo cientista e para pesquisas anteriores, a mesma retórica:

Num computador, antes que você possa instalar os programas, é preciso que ele tenha um conjunto de instruções básicas, um sistema operacional. Só assim a máquina pode entender os softwares que serão instalados. Venter pensou que a mesma coisa seria necessária para a criação de vida sintética. Então o primeiro passo seria criar um Windows biológico, quer dizer, um genoma que contivesse apenas o básico do básico para a sobrevivência da criatura.

Terminaram com cerca de 400 genes. E ficou decidido que esse seria o Windows da primeira forma de vida criada em laboratório. Mas não um Linux. (…) Quem quiser usar o mesmo sistema operacional terá de pagar royalties, se o pedido de patente for aceito. Isso revoltou cientistas concorrentes, que acusaram a iniciativa de tentar criar uma Microbiosoft, à moda de Gates.” [leia completo]

A metáfora ainda vai mais longe aqui. Caracteriza-se o sistema operacional como Windows e se faz isso para constratá-lo com o Linux: o primeiro patenteado e acusado de monopólio e o segundo de código livre. Uma diferença é que, enquanto o JT gera apenas clareza, a matéria da Super permite especular sobre conflitos futuros no terreno da biotecnologia, pressupõe tendências.
Além da funcionalidade da analogia, porém, me parece estar certa visão de mundo por detrás desses exemplos. O modo pelo qual as duas matérias veem a vida é mecanicista, compara o funcionamento biológico ao funcionamento de uma máquina. E é assim de fato? Encontrei pelo menos dois artigos que expõem as críticas a esse modelo, “Haeckel e Nietzsche: aspectos da crítica ao mecanicismo no século XIX” e “Holismo X Mecanicismo — Que é a vida?“. Ainda não li, então não posso assegurar a qualidade ou a pertinência deles. Assim que ler esses e outros, avanço na análise.
Para quem quiser mais sobre o genoma sintético: o cientista responsável pelo projeto, Craig Venter, pronunciou uma palestra no TED em 2008, em que ele prometia criar vida, como de fato fez.

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