Ontem, estreou o Legendários, na Record. O programa segue duas tendências da programação da emissora nos últimos tempos: as contratações vultosas e a reprodução de modelos de outras tvs. O programa, de um só lance, desfalcou a MTV de Marcos Mion, João Gordo e a equipe de Hermes e Renato, entre outros. Na estrutura, faz uma mescla de Pânico na TV (com mulheres seminuas e os repórteres/comediantes dividindo o palco com o apresentador, sem que necessariamente façam nada de importante, a não ser serem focados pela câmera quando a matéria a seguir é deles) e CQC (com ‘reportagens’ de denúncia e crítica social). Dos dois, tem esse caráter de perfomance nas matérias que faz e acrescenta ainda um elemento: uma postura (pseudo)social e a ideia de estarem construindo uma televisão mais, digamos, sofisticada — o que se inscreve no slogan da Record: “rumo à liderança”…
Considere o programa como o que ele é, um ponto em que convergem diferentes influências, e você terá mais razões para enxergá-lo além do seu valor de face. Há pelo menos três coisas a analisar: a estratégia que, à primeira vista, a Record parece estar usando para confrontar a concorrência e oferecer um produto igual, mas diferente; o abandono gradual da imagem sem ruídos, limpa, tradicional — pelo vídeo com comentários gráficos, com interferência e intertextualidade, e, neste contexto, de vanguarda; e a proximidade cada vez maior entre jornalismo e entretenimento. Esse último tema sozinho vale um post, então não vou comentá-lo agora; ficamos só com os exemplos do parágrafo acima: a afirmação da cidadania, o humor político, etc — e só mais uma ideia a respeito, lá pelo final.
Não assisto televisão o bastante para saber se esse é um jeito de agir constante da Record, mas, ontem, não só no Legendários, enxerguei duas estratégias que me parecem o modo como se pretende desbancar a concorrência. Em primeiro lugar, a caricatura, a paródia: os outros humorísticos, os funcionários de outras tvs, seus bordões, seus costumes, foram simulados dentro da Record. É como se a emissora mantivesse o essencial desses programas alheios, e estivesse, de alguma forma, acima deles, porque pode fazer graça deles. Há uma visão de perspectiva, supostamente mais inteligente, que se espera crítica em algum nível. Em segundo lugar, a autoreferencialidade. Quando os programas de uma televisão fazem humor consigo mesmos, quando, por exemplo, o Vídeo Show mostram os erros dos atores, o almoço da Ana Maria Braga, a vida pregressa do Louro José, etc, o que ele faz é uma propaganda implícita de todos os outros programas, ao mesmo tempo criando uma intimidade com o espectador em relação a eles. A Record, pelo menos ontem, no Legendários, fez o mesmo.
Por outro lado, vi televisão o bastante para saber com um nível de certeza metafísica que, no Jornal Nacional, os apresentadores sempre estarão de terno, nunca serão debochados, sempre se mostrarão objetivos e provavelmente não comentarão as matérias de nenhuma maneira. O cabelo da repórter no vídeo estará indefectível, sua roupa não chamará atenção, etc. De modo geral, é uma tendência a despersonalizar (ou atribuir uma personalidade neutra) na medida do possível a apresentação do jornal, para que exista, também na televisão, a mesma objetividade que existiria no impresso. Mas, agora, observe os três programas de que estamos falando. Em todos eles, com frequência, grafismos na tela comentam o assunto, fazem piadas sobre o entrevistado ou apenas surgem por motivo nenhum. Toda reportagem é, em certa medida, intertextual: há referências a outras matérias feitas pelo programa, personagens da cultura pop aparecem, cenas de outros tipos de vídeo são intercaladas em meio a outras (filmes antigos, etc).
Há também outro fator: a serialização interna: o o que vai acontecer depois? das séries, em toda reportagem. E também uma espécie de reality show do jornalismo: como isso é feito e também olha só como ele fez isso!. Não é difícil entender como isso chegou a se tornar uma influência. Já a interferência no vídeo e a aceitação da imagem mais pobre, elas já existiam em outros canais e em produções artísticas como o videoclipe, mas agora chega ao mainstream. A empresa produtora do CQC, Cuatro Cabezas, reinvindica a paternidade do estilo. Seu trabalho é tão bem sucedido no Brasil que terão ainda outro programa, o A Liga, que estreia em maio — esse provavelmente terá a criatividade gráfica da produtora e se parecerá com o Profissão Repórter, com reportagens de personagem, mais “aprofundadas”.
Como entender esses dois movimentos?
A estratégia comunicacional da Record me parece funcional, cria mesmo essa familiaridade com os outros programas que é o que de fato parece fazer as pessoas assistirem uma determinada emissora (e não a qualidade a priori das atrações). Mas, por outro lado, nos encaminhamos a um futuro em que “programações”, do modo como as entendemos hoje, não farão sentido — as tendências indicam que vamos escolher que programa assistir e quando assistir. Então, pode ser um gesto perfeito em um contexto que fenece. É provável que não seja o bastante.
Já os grafismos, a intertextualidade, o reality show, o making-of, etc, dentro do jornalismo, são, é evidente, uma depreciação da informação concreta. Não é o que, quando, onde, por quê, nem é o como da notícia em si, mas sim o “como” da própria reportagem. O Legendários faz uma matéria sobre meio ambiente, praticamente uma perfomance artística: coloca flores nos escapamentos dos carros. Ou vai às ruas destacar que boa parte do orçamento de São Paulo vem de multas de trânsito. Não é pelo assunto ou pela revolta que qualquer pessoa vê isso; se fosse pelo assunto ou pela revolta, elas já teriam feito alguma coisa, antes do programa: a informação é só um pretexto para o entretenimento. Nesta medida, ao mesmo tempo em que a diversão “salva” o jornalismo, ela destrói o seu objeto e seu motivo de existir.

Ou estou exagerando?

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