Comentando uma matéria da New Yorker sobre traficantes no Rio de Janeiro, a jornalista Ana Estela notou um erro no texto: em vez de chamar nossa moeda de ‘reais’, a revista americana a chamou de ‘reis’. A jornalista, então, pergunta: “não é nada que mude a vida de ninguém, claro. Mas imediatamente o leitor pensa: se erraram algo tão básico, como confiar no resto?”. Imprecisões, mesmo pequenas, mesmo paralelas, corroem a matéria jornalística. E esse é o caso do artigo “Chico Buarque não gosta de Roda Viva“, publicado na Bravo! deste março. Ao falar de seu tema principal, a autora, Mariana Delfini, é levada a tratar das relações esquerda/direita no período pré e pós-ditadura — e, no que faz isso, induz o leitor a uma visão histórica errada.
Delfini escreve, sem citar fontes:

Roda Viva foi vítima de um espírito de época. Uma época estranha, em que direita e esquerda ainda não haviam conquistado o civilizado espaço da democracia para esgrimir suas teses – algo que felizmente acontece hoje – e se digladiavam de maneira tosca, apelando para o recurso dos pouco inteligentes: a violência. De um lado, o Partido Comunista do Brasil e outras forças autoritárias de esquerda pregavam e praticavam a luta armada — a qual não foi uma reação contra a ditadura, pois começou a ser preparada antes de 1964, ainda em tempos de democracia. De outro, uma ditadura que, como todo regime autoritário, perseguia os opositores com violência – e indiretamente encorajava grupelhos como o CCC, que barbarizavam por conta própria. Foi um tempo que não deixou saudade, em que guerreávamos uns contra os outros, como se fôssemos talibãs. (…)” [grifo nosso]

Primeiramente, chamar de “tempos de democracia” o período que antecedeu 1964 não encontra respaldo histórico. Caio Navarro de Toledo elucida alguns pontos:

Em toda nossa história republicana, o golpe contra as frágeis instituições políticas do país se constituiu em ameaça permanente. Seu fantasma rondou, em especial, os governos democráticos no pós-46; com maior intensidade, a partir dos anos 60. Assim, pode-se dizer que o governo Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o espectro do golpe de Estado. (…)”

No pré-64, outras reivindicações políticas visavam o alargamento da democracia liberal vigente no país: entre elas, (…) a legalidade do Partido Comunista Brasileiro, posto fora da lei desde 1947. Embora alguns de seus membros conseguissem ser eleitos por outros partidos, embora tivesse lideranças em sindicatos, editasse revistas e semanários, o PCB não podia realizar seus encontros e reuniões senão de forma clandestina e sob permanente repressão policial. A inexistência do pluralismo ideológico-partidário no pré-64 se constituía, assim, numa séria deformação da democracia política no país. (…)”

Então, o que se caracteriza como “força autoritária de esquerda” nem sequer tinha espaço naquela chamada democracia. Aqui também acontece uma falta de critério ao não distinguir o Partido Comunista Brasileiro (PCB) do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Antes a mesma agremiação, as duas partes divergiram em questões de doutrina e se separaram — sendo a segunda que daria origem a ações de guerrilha. A primeira, ao contrário do que sugere o texto quando diz que a luta armada era “pregada e praticada” antes de 1964, sustentava a transição pacífica do capitalismo ao socialismo: conceito que deu origem à divergência referida acima. Dos outros grupos de esquerda da época, só a Polop (que depois daria origem a vários grupos dissidentes) falava de luta armada, enquanto a Ação Popular (AP), embora mais oposicionista, ainda fazia parte do diálogo com o governo. 
Todas as informações do parágrafo acima se baseiam em dados das primeiras partes da dissertação O Partido Comunista do Brasil e o Movimento de Luta Armada nos Anos 60de Antonio Carlos Galdino. Outra referência é o artigo As Divergências da Esquerda Brasileira no Pré-1964, de Taiara Souto Alves.

Um expoente da extrema direita, Reinaldo Azevedo, em um esforço para, como ele diz, “apontar as mãos sujas de sangue” da esquerda, listou 119 vítimas desses movimentos extremistas, em quatro posts (1; 2; 3; 4). E, mesmo ele, só trouxe nomes depois de 1964, o que contraria mais uma vez a tese exposta no parágrafo da Bravo!. Em outro post, tratarei de por quê é particularmente importante citar Azevedo nesse caso. Mas, agora, vamos ao último grifo: “como se fossemos talibãs”.
De imediato, a comparação parece desnecessária e imprópria. Desnecessária porque não acrescenta nada ao texto. Imprópria porque coloca juntos dois contextos irreconciliáveis. Como informa a Nova Escola, as motivações do Taliban para tomar pela primeira vez o poder eram mais religiosas que políticas e seus objetivos atualmente são contra a influência de outros países e não contra um poder usurpador interno. Por outro lado, isso implica em afirmar que os dissidentes brasileiros eram terroristas de mesmo tipo. Tese não naturalmente aceita, como argumenta, neste textoCelso Lungaretti: “o direito de resistência à tirania [impede], tanto no caso de quem pegou em armas contra o nazifascismo na Europa como no caso de quem travou a luta armada contra o regime de exceção brasileiro de 1964/85, o enquadramento legal como terrorista”. Lungaretti também cita o jurista Monnerat Baptista, que diz:

Não se devem caracterizar os atos praticados contra a ditadura militar como crimes políticos ou de terrorismo. Até porque, de acordo com a definição do art. 2º da Lei 7.170/83, foram os golpistas de 1964, e não os insurgentes de esquerda, que subverteram a ordem constitucional vigente, estabelecendo, sob a égide da violência, do terror e do medo, uma nova ‘ordem’ político-institucional, sem qualquer salvaguarda dos princípios básicos atinentes à fundamentação da soberania democrática do Estado.

Não discuto quem está certo ou quem está errado, se são terroristas ou não. Só atento ao fato de que esse trecho de Delfini acaba por sustentar uma opinião a respeito dos movimentos de esquerda — e opinião pura (que é diferente de interpretação) é algo de que o jornalismo deve se afastar. Se há, por um lado, erro histórico, e, por outro, opinião, “como confiar no resto”?

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